segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Escrita

Escrever é enfeitar a tristeza
Abreviar o luto
Minimizar a perda
Embalsamar a esperança
Anular o desperdício

É diluir as lágrimas que regam as flores
Acertar o pH das emoções
Trocar a lente do cristalino
Cessar a catarata de dor

É esculpir mármore com as unhas
Enquanto cheira ópio

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Mar

No mar
Cabelo alga
Corpo flutua
Leveza de ser

Na cama
Cabelo teia
Cachos que enroscam
Na sede de você

sábado, 21 de outubro de 2017

Prendada

Bordei seu nome em ponto cruz
Na intenção de findar o meu calvário
Guardei o paninho numa caixa
Esborrifei com o seu perfume

Quis dar ao fim uma borda
Término, limite, contenção
Na esperança de que tenha acabado
A sua participação especial na minha vida

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Pós

E aí você se lembra
Que já tinha vida
Que já tinha risos
Que já tinha planos

E o sol a abraça
E já havia sardas
E já havia marcas
E já havia pele

E o vento embala
Ainda tem sonhos
Ainda tamanhos
Ainda imperando

E tem histórias de sobrevivência:
Já passou por isso

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ido

É aquela dor que a terra sente
Quando lhe arrancam a árvore com raiz e tudo
É o barranco chorando
O naco que caiu no rio

É menstruar antes de completos seis meses
E o ovo quebrar sem que o conteúdo se mova
Saudade a gente tem e é normal
Difícil é lidar com ela

Mudança

Vejo mudanças acontecendo
Astros em realinhamento
As águas dentro de mim se movendo
Olho e em silêncio tento receber a mensagem
(O que será que Deus está aprontando?)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Cláudio

Passamos bem uns três dias examinando a boca na frente do espelho. Nem um pequeninho, verdinho pra contar história. Nada na língua, nada nas bochechas. Eu esperava um criadouro de anfíbios em miniatura. A classe toda já tinha se entediado de nos ver, sentados na escada, esperando os pais, ele no degrau de cima com os joelhos afastados e eu no de baixo, escutando e acreditando nas declarações de amor dele. Afinal de contas, eu era adorável mesmo, a tia Yara tinha dito. Exigiram um selinho como prova do namoro, e achamos uma boa ideia. Não sentimos nada, óbvio, mas a reação estrondosa e a risada abafada quando a professora voltou pra classe eu não esqueço. Numa manhã, resolvemos conversar: "E aí! Alguma coisa?" "Não. E vc?" "Também não." Fiquei aliviada. "Demos sorte. Todo mundo sabe que criança não pode beijar porque dá sapinho na boca." Eu tinha 5 anos. Ele, 7. Chorou de lágrima quando me mudei de Santos pra Limeira, por causa do emprego do meu pai.