domingo, 8 de maio de 2016

Inverno

Quem diria que a luz no fim do túnel
Era a dos seus olhos, que se apagou naquele Maio
E que os meus gritos de dor na madrugada
Acordariam gatos asmáticos, num balaio

Quem diria que a confusão de nós
Se desfaria num puxão do destino
E eu viria a ter saudade do medo
Que nos impediu daquele desatino

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Fase

Às vezes a gente precisa de alguém
Que não complique muito
Que não analise muito
Que não se assuste facilmente

Que role no barranco com a gente
E ria da roupa suja lá em baixo
E tire sarro do ciúmes
E vire poesia sem medo da responsabilidade

Às vezes a gente precisa de alguém
Que simplesmente goste de viver
Que seja leve e que tenha por ter
Que receba presentes por saber merecer

(São esses os que viram boas lembranças)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Hoje

Hoje
Eu teria enfrentado a distância
Para beijar suas pálpebras
E lamber as pontas dos seus dedos
Porque a saudade apertou
E eu já não tenho medo

Hoje
Eu não analiso os porquês
E sei do tempo que nos foge
Eu pagaria o preço
Que só paga quem tem coragem
Porque a dor é privilégio
De quem ainda está vivo

Hoje
Eu ouviria as suas histórias
E tiraria o seu fôlego
E roubaria a sua paz
Eu teria estado com você, hoje
Tivesse você me chamado

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Mulheres

A diferença entre eu e ela é que enquanto ela se programa para a próxima plástica, você discute comigo a sua técnica cirúrgica.
E enquanto ela fazia aulas de balé, levada e buscada pela mamãe, dissecávamos cadáveres.
Ela lê revistas de celebridades, eu e você vamos a reuniões sobre óbito.
Ela nunca andou de metrô. Eu cresci mais solta que uma pipa.
Ela quis casar virgem. Eu te apresentei o KY.
Mas vai fundo. Insista. Invista.
No caso de persistência dos sintomas, consulte um bom psicólogo.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Culpa

Me vestiu de bailarina
E alimentou a fantasia
Ao longo dos anos
Agora vem cheio de raiva
Cobrar por supostos
Perdas e danos

Não me desculpo
Demorou a acordar
Não só não danço
Meu senhor
Nem tampouco
Sei brincar

Permissão

Pode recolher as armas
E bater em retirada
A gente se encontra mais à frente
Pra uma próxima rodada

Paz

Existem manhãs
De suspiros
E vazios
De barriga cheia

De sensação de plenitude
Da visão total
Do vale e da subida íngreme
Que já se percorreu

E a gente finca bandeira
E, cansada, se senta
Nada faz mesmo muito sentido
Mas é o que é