sexta-feira, 14 de abril de 2023

Cinquentona

O tempo mancha a pele, mesmo usando filtro solar. E a alma, mas só se você deixar. As crianças crescem e roubam a ilusão de eternidade. E ao mesmo tempo a devolvem. O sol se põe e levanta, indiferente à sua dor ou alegria. A semente vinga ou nem se manifesta, não proporcionalmente à sua torcida. E alternamos entre nos sentirmos poderosos e desamparados, pelas próprias naturezas. Ou criadores e destruidores, pela definição de seres humanos. E tudo é muito bom. Arlete Franco - abril/2023 Porque a Júlia e a Gerusa me sugeriram escrever.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Carnaval 2023

Ao meu lado, eu quero gente feliz e festeira. Que ri de chorar de si mesma e faz dancinha pra celebrar uma boa companhia. Gente que se contenta com pouco porque sabe que de pouco também se vive e celebra a maravilha que é ser humano. E, estando no muito, distribui com generosidade. Que fica eufórico só de respirar o oxigênio das possibilidades mil. Que não precisa se sustentar emocionalmente às custas de críticas às fraquezas dos outros. Comigo, quero gente que ama viver. Apesar de, contudo, todavia, conhecer a maldade e ter umas e outras histórias tristes pra contar. Gente que pode ter a vida guinada bruscamente, e não perde a essência do bom olhar. Que é exceção, mas existe. Que surge no caminho para iluminá-lo. Que faz a gente fã, admirador, de quem não se quer sair de perto. Bem perto. Arlete Franco - Fevereiro/2023

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Limitada

Só sei escrever sobre pés andantes Que procuram fontes Que vislumbram pontes A sede da conexão com alguém Só sei escrever sobre mãos que clamam Almas que chamam Aos ouvidos não bloqueados A inocência de acreditar Só sei escrever sobre olhos de encanto Que buscam ninho e manto Aos que simpatizam com o frio A esperança de não se estar só E aos que clamam: "Monotemática! Entediante!" Só uma resposta: "Mea culpa Mea culpa Mea culpa..." Arlete Franco - Dezembro/2021

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Arlete

Dá um desconto aí Desconta a solidão O abandono E as portas fechadas na cara O não cabimento O não pertencimento O não ser de ninguém Quando ninguém fotografava Dá um desconto aí Do sobrenome que todo mundo tem Do "essa aí vai dar em nada Ou vai dar pra todo mundo" Da promissória que ninguém quer assinar Da esperança num futuro que nunca foi garantido Ou melhor: dá desconto não Cobra tudo! Houve anjos nas rodoviárias vazias na madrugada Houve mães nas mães das crianças bem nascidas Houve madrinhas e apostas de desconhecidos E o que eu não tive, aparentemente E graças a Deus Foi o que eu não precisava Pra chegar onde cheguei Chegar em mim Arlete Franco Setembro/2021

domingo, 10 de janeiro de 2021

Ofício

Poetas sangram palavras Ignoram anemias E seguem intensos pelo mundo Encantam-se com relâmpagos sutis Desprezam avisos E colecionam estrelas Poetas seguem maltrapilhos Entre tristeza e brilho No que existe de profundo Sobem ao céu em êxtase Descem pra Terra pelo humano E nunca são em vão Arlete Franco

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Finito

E quando as águas do tsunami subirem E quando a artéria mais calibrosa se romper E quando as cortinas se fecharem E quando você voltar ao silêncio do útero Não foi a sua mãe e o leite que negou Nem o seu pai no trono distante em que se empoleirou Não foram os amores ou quase Ou os amigos de cada fase Não foram os tombos, sustos, assombros Não foram as comédias, dias mornos, tragédias Não foram as cobras, gatos, lagartos Não foram as cores, cheiros ou sons Foi só você O que viu dentro, enraizado Arrancou com a mão e ofertou ao mundo Foi sempre só você

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Expressão

O amor não fala português Ou nenhuma outra língua romântica Não disputa com o rebuscado dos poetas Nem com a devoção das mães O amor grita através de atos Só pros ouvidos de quem interessa saber: "Passe o tempo Passe o mundo Estou aqui Com E para Você..."