quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Família

Quando a gente cresce, percebe que heróis são feitos de carne e osso. Que fizeram melhor do que fizeram com eles e a gente tenta fazer melhor do que fizeram com a gente. De trauma em trauma vai-se tentando superar.
Que buscou-se mãe em tantas mulheres e pai em tantas figuras masculinas, que a colcha de retalhos emocional cobre aqui e acolá, mas sempre tem um pedacinho tremendo de frio e medo. De estação em estação vai-se tentando administrar.
Que acolher e ajudar pode ser gesto espontâneo e natural, mas disposição e gratidão têm mais correlação com índole do que com abundância de recursos. De decepção em decepção vai-se tentando suportar.
Segue o tempo e o crescimento em estirão. De história em história vai-se tentando levar.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Farsante

No esforço de impressionar alguém, mesmo mentindo, você consegue, na melhor hipótese, admiração indevida. Na pior, inveja e dúvida.
Afeto é outra coisa.
Na pose ensaiada, perda de espontaneidade e dourar de pílulas, você induz, na melhor hipótese, a uma fantasia. Na pior, a idealização irreal e decepção.
Amor é outra coisa.
Nos cálculos de manipulação e emoção artificial, o empenho é grande e o resultado questionável. Na melhor hipótese, você conquista um inocente que vai sofrer. Na pior, é tão manipulado quanto.
Viver plenamente é outra coisa.
No esforço em seduzir sem conexão afetiva e sintonia de intenção, a satisfação é temporária. Na melhor hipótese, tesão passageiro. Na pior, objetificação do sagrado.
Encontro é outra coisa.
E na hora que a realidade cobra, a máscara cai e só resta você, a conta chega. Na melhor das hipóteses, perdão e acolhimento. Na pior, ressentimento insuperável.
Relacionamento saudável é outra coisa.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Sobre o M.

Quando eu o vi Meu coração murmurou "é isso" O problema: era o de sempre (O que não deveria nunca, jamais ter sido)

domingo, 18 de novembro de 2018

J.

Antes do primeiro sol se pôr Você já tinha sido feito Pra mim Eu dançava na ponta dos pés Fingia não perceber o seu olhar E cantava "não somos tão diferentes assim" Comprimia o meu peito contra o seu e contra o muro Na ponta dos pés Tinha dó dos seus olhos verdes se fecharem E de quem tinha o coração parado Quem nunca mais sentiria isso Pedia explicação sobre as palavras e você sorria Disfarçava Escapulia "É só uma poesia..." Antes da primeira lua se escandalizar Eu já tinha sido feita Pra você Você pairava na beira dos meus sonhos Fingia não querer também E suspirava "quem sabe numa próxima ?"

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Caldeirão

A minha tataratataravó delatou as inimigas
E cheirou suas cinzas como cocaína
Só não previa que feitiço passa entre gerações
Mas maldade a genética às vezes dilui
(Eu seria sua maior decepção)

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Arteira

A minha bruxaria eu faço quando o paciente chega tenso e vai embora sorrindo.
Quando ele vem ao meu consultório na intenção de formar parceria comigo para melhorar.
Quando me visto de branco e penduro o esteto ao invés de um corvo no ombro.
Tendo visto gente nascer e morrer. Tendo colhido risos e enxugado lágrimas. E derramado muitas, também.
Depois de ter passado 8 anos com medo de nunca mais exercê-la e décadas folheando milhares de páginas. Dissecar cadáveres, manipular rãs e ratos e passar noites em claro.
Quando amigos e familiares me têm como referência na hora em que sou insubstituível.
A minha bruxaria eu faço devendo a tantos professores em quem confiei e colegas e profissionais do time em quem confio.
A minha bruxaria me faz feliz como arte nenhuma outra me faz.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Sobre uma tarde chuvosa

Não posso pinçar o amor
Do momento belo
Da doçura e entendimento
Da saúde e encantamento

Pois se escolhi te amar
Se mereces o meu amor
Será teu o meu olhar
Será minha a tua dor