O barro de que fui feita
Tinha cinco tipos diferentes de argila
Um pózinho de ouro
E um analgésico intrínseco
Olho os ossos friáveis do meu pai
Que só existem sob olhares de plateia
E penso que não tem como
Eu ter saído dessa costela
Vejo o caos organizado da minha mãe
Planetas desalinhados e estrelas explodindo
E percebo que essa via láctea
Não foi de onde acabei me nutrindo
Observo meus irmãos e seus quereres
Tantas decisões, tão diferentes
Nossas hélices nem tão distantes
Nossos céus tão divergentes
Concluo que fizemos nossa história
Convivemos, aprendemos, adquirimos memória
Mas pertencimento é sentimento interno
E a gente vive é o agora
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
Sina
Sabe tudo sobre trabalho
Febre, fome e sufoco
Aprendeu ali pelo quinto filho
Que o diabo primeiro enseba o pau
E depois besunta o porco
Febre, fome e sufoco
Aprendeu ali pelo quinto filho
Que o diabo primeiro enseba o pau
E depois besunta o porco
domingo, 10 de dezembro de 2017
Imóveis
As pedras suam
E choram
Dores e lágrimas invisíveis
Como as mães escondidas nos banheiros
Sob chuveiros
As pedras desejam
E sofrem
Impulsos de vida que devem ser detidos
Por conta da retidão e das regras
Impostas
As pedras rezam
E se desesperam
Porque o tempo passa rápido
E ainda assim lento
Por conta do sol que castiga
E da noite que não ameniza
As pedras às vezes gostariam de não existir
E choram
Dores e lágrimas invisíveis
Como as mães escondidas nos banheiros
Sob chuveiros
As pedras desejam
E sofrem
Impulsos de vida que devem ser detidos
Por conta da retidão e das regras
Impostas
As pedras rezam
E se desesperam
Porque o tempo passa rápido
E ainda assim lento
Por conta do sol que castiga
E da noite que não ameniza
As pedras às vezes gostariam de não existir
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
Aos 13
E, quando dei por mim, éramos só nós duas: eu e a vida.
Sentei-me de frente a ela com as pernas em forma de V ao longo das coxas, por fora, e ela me avisou que não fizesse isso, porque as deformaria. Respondi que ela não devia estar fumando.
Sorriu-me com dentes amarelados e me ofereceu uma troca: eu não mais me sentaria daquele jeito, e ela deformaria a minha visão.
Eu não veria perigo em estar sozinha numa rodoviária na madrugada. Nem em assumir dívida que não saberia se podia pagar. Não reconheceria olhos maliciosos e nem armadilhas de inveja. Receberia convites escusos e diria "não" como quem se recusa a aceitar uma bala. Assumiria responsabilidades dos outros, e malemá daria pouco a quem nada tinha. Almoçaria sem saber se teria janta. Seria surda a ofensas menos que óbvias.
Não achei vantagem, mas ela prometeu: "eu te mandarei anjos, e você será uma das pessoas mais felizes que conhece".
Tenho belas pernas até hoje.
Sentei-me de frente a ela com as pernas em forma de V ao longo das coxas, por fora, e ela me avisou que não fizesse isso, porque as deformaria. Respondi que ela não devia estar fumando.
Sorriu-me com dentes amarelados e me ofereceu uma troca: eu não mais me sentaria daquele jeito, e ela deformaria a minha visão.
Eu não veria perigo em estar sozinha numa rodoviária na madrugada. Nem em assumir dívida que não saberia se podia pagar. Não reconheceria olhos maliciosos e nem armadilhas de inveja. Receberia convites escusos e diria "não" como quem se recusa a aceitar uma bala. Assumiria responsabilidades dos outros, e malemá daria pouco a quem nada tinha. Almoçaria sem saber se teria janta. Seria surda a ofensas menos que óbvias.
Não achei vantagem, mas ela prometeu: "eu te mandarei anjos, e você será uma das pessoas mais felizes que conhece".
Tenho belas pernas até hoje.
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Ética
Não dou conta de ver cinza onde é puro breu
Nem de quadricular canvas quarada
Não dou conta de mentir olhando nos olhos
Nem de assinar farsa arquitetada
Não dou conta de estragar, mesmo com permissão
Nem de sufocar sentimentos, usando a razão
Não dou conta de usar todos os meios pra atingir um fim
Justificativa eu devo é só a mim
Nem de quadricular canvas quarada
Não dou conta de mentir olhando nos olhos
Nem de assinar farsa arquitetada
Não dou conta de estragar, mesmo com permissão
Nem de sufocar sentimentos, usando a razão
Não dou conta de usar todos os meios pra atingir um fim
Justificativa eu devo é só a mim
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
Lamento
Se ao menos houvesse
Um resto de manhã
A fé, a espera
Um desejo na boca
Seu nome a ecoar
Se ao menos ainda fosse
Um sol a brilhar
O fio, o novelo
Uma sede da alma
Seu olhar a me chamar
Se ao menos tivesse restado
Um plano a ser desenhado
A promessa, a conquista
Que quebrasse o espelho
O fantasma a rondar
Ou ao menos o silêncio...
Um resto de manhã
A fé, a espera
Um desejo na boca
Seu nome a ecoar
Se ao menos ainda fosse
Um sol a brilhar
O fio, o novelo
Uma sede da alma
Seu olhar a me chamar
Se ao menos tivesse restado
Um plano a ser desenhado
A promessa, a conquista
Que quebrasse o espelho
O fantasma a rondar
Ou ao menos o silêncio...
terça-feira, 14 de novembro de 2017
Dança
Quando houve sinceridade
Houve desencontro de intenção
E segue insistindo
Quando houve amizade
Houve falta de desejo
E sigo existindo
Quando houve sintonia
O timing não podia ser pior
E segue resistindo
E segue o baile
Que eu sambo é sozinha
Houve desencontro de intenção
E segue insistindo
Quando houve amizade
Houve falta de desejo
E sigo existindo
Quando houve sintonia
O timing não podia ser pior
E segue resistindo
E segue o baile
Que eu sambo é sozinha
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