quarta-feira, 21 de março de 2018

Dano

Corta
Carne
Sangra
Pica
Talha
Estraga
Danifica

Recupera
Granula
Fecha
Sara

(Nada dura para sempre)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Estranhamento

O barro de que fui feita
Tinha cinco tipos diferentes de argila
Um pózinho de ouro
E um analgésico intrínseco

Olho os ossos friáveis do meu pai
Que só existem sob olhares de plateia
E penso que não tem como
Eu ter saído dessa costela

Vejo o caos organizado da minha mãe
Planetas desalinhados e estrelas explodindo
E percebo que essa via láctea
Não foi de onde acabei me nutrindo

Observo meus irmãos e seus quereres
Tantas decisões, tão diferentes
Nossas hélices nem tão distantes
Nossos céus tão divergentes

Concluo que fizemos nossa história
Convivemos, aprendemos, adquirimos memória
Mas pertencimento é sentimento interno
E a gente vive é o agora

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Sina

Sabe tudo sobre trabalho
Febre, fome e sufoco
Aprendeu ali pelo quinto filho
Que o diabo primeiro enseba o pau
E depois besunta o porco

domingo, 10 de dezembro de 2017

Imóveis

As pedras suam
E choram
Dores e lágrimas invisíveis
Como as mães escondidas nos banheiros
Sob chuveiros

As pedras desejam
E sofrem
Impulsos de vida que devem ser detidos
Por conta da retidão e das regras
Impostas

As pedras rezam
E se desesperam
Porque o tempo passa rápido
E ainda assim lento
Por conta do sol que castiga
E da noite que não ameniza

As pedras às vezes gostariam de não existir

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Aos 13

E, quando dei por mim, éramos só nós duas: eu e a vida.
Sentei-me de frente a ela com as pernas em forma de V ao longo das coxas, por fora, e ela me avisou que não fizesse isso, porque as deformaria. Respondi que ela não devia estar fumando.
Sorriu-me com dentes amarelados e me ofereceu uma troca: eu não mais me sentaria daquele jeito, e ela deformaria a minha visão.
Eu não veria perigo em estar sozinha numa rodoviária na madrugada. Nem em assumir dívida que não saberia se podia pagar. Não reconheceria olhos maliciosos e nem armadilhas de inveja. Receberia convites escusos e diria "não" como quem se recusa a aceitar uma bala. Assumiria responsabilidades dos outros, e malemá daria pouco a quem nada tinha. Almoçaria sem saber se teria janta. Seria surda a ofensas menos que óbvias.
Não achei vantagem, mas ela prometeu: "eu te mandarei anjos, e você será uma das pessoas mais felizes que conhece".
Tenho belas pernas até hoje.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Ética

Não dou conta de ver cinza onde é puro breu
Nem de quadricular canvas quarada
Não dou conta de mentir olhando nos olhos
Nem de assinar farsa arquitetada

Não dou conta de estragar, mesmo com permissão
Nem de sufocar sentimentos, usando a razão
Não dou conta de usar todos os meios pra atingir um fim
Justificativa eu devo é só a mim

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Lamento

Se ao menos houvesse
Um resto de manhã
A fé, a espera
Um desejo na boca
Seu nome a ecoar

Se ao menos ainda fosse
Um sol a brilhar
O fio, o novelo
Uma sede da alma
Seu olhar a me chamar

Se ao menos tivesse restado
Um plano a ser desenhado
A promessa, a conquista
Que quebrasse o espelho
O fantasma a rondar

Ou ao menos o silêncio...