segunda-feira, 4 de abril de 2016

Proposital

Mais ou menos planejado
Próximo de ser sincero
Deixando de ser ensaiado
Evoluindo para verdadeiro

Mais olho no olho
Menos pele com pele
Tipo tem mais coisa boa
Meio que não intencional

Na fuga das definições
Um pouco de fusão de nós

Céu

Exconjuro o ensinamento
De que ser feliz é pecado
Porque encontro a minha felicidade nas pessoas
E acho que o Amor é coisa de Deus

Mas os meus amores são vis,
Incompletos, inacabados, pecadores
Aceito a danação eterna
Desde que paguemos as nossas faltas juntos

(Ou, resumindo: "se eu for pro Céu, vou ficar desenturmada")

domingo, 3 de abril de 2016

Difícil

Vou definir "desencontro"
Numa frase concisa
É você não ser nada do que ele quer
E ele ser tudo do que você precisa...

sábado, 2 de abril de 2016

Dona Jô

Quando eu estava no quarto ano da faculdade, tinha que achar um lugar para morar, porque a "minha" república estava sendo desfeita. Vi um anúncio no mural sobre uma viúva que estava alugando um quarto, e liguei. Atendeu alguém falando o nome de uma loja. Achei que era engano e desisti. Na mesma tarde, uma amiga me falou de uma amiga da mãe, que estava alugando um quarto. Era a mesma pessoa. Tinha colocado o telefone da loja em que trabalhava, para preservar a privacidade.
Seu nome é dona Jô, uma das melhores amigas que tenho. Moramos juntas por pouco tempo, porque tive que ceder o meu quarto para a irmã dela, mas nos amamos e mantemos contato. Foi à minha formatura, casamento, velório do tio, batizado da filha, e me influenciou lindamente. Conhece mulher que enviúva e cria os filhos sozinha, dignamente? Desse modelinho.
Quando leio sobre "o que tem que ser", querendo acreditar que existe uma estrutura definida por alguém por algum motivo, eu me lembro dessa história.
Não veio por um caminho, mas veio por outro. Uma das várias figuras femininas fortes da minha vida. Muito necessária. Mandada por Deus. Mesmo com a minha desistência inicial.

Trabalho

O sofrimento é a massa de pão do cuidador. Se estou trabalhando, é inevitável. Sou procurada, na maioria das vezes, devido a ele. E, esdruxulamente, às vezes convido o paciente a comemorar a existência da dor.
Explico.
Metade dos pacientes com entupimento das coronárias têm morte súbita sem qualquer sintoma prévio. Tem gente andando por aí com pressão alta, sem sentir nada. Procurar médico pra quê? "A gente só vai no dentista se o dente doer", eu digo para eles. Não é o certo, mas é o que a maioria faz. Sentir dor ou cansaço aos esforços, palpitações, a famigerada dor na nuca que contestam se é sintoma de pressão alta, e etc, acaba sendo bom.
Precisou de ponte de safena? " Sorte sua. A gente só recauchuta pneu que vale a pena!" Sim. Eu consigo um sorriso no meio do medo, falando essa frase.
Mas o que me marcou nessa manhã foi que, contrariando a minha rotina, celebrei resultados negativos de exames ("negativo" nesses casos é bom, sem doença) e até dei alta pra gente saudável demais para acompanhar comigo.
Umas ilhas de boas notícias são muito bem-vindas. Verificar saúde é tão prazeroso quanto restaurá-la.

Weston

Só entende o estrago de um furacão quem passa por ele. É um monstrengo que se forma em alto mar, monitorizado pelos noticiários da TV muitos dias antes. Mostram um mapa, uma localização e um cone projetando o possível caminho que seguirá.
Você vai dormir. No dia seguinte, ele está mais perto da terra firme, em algumas horas, o cone se afunila, e vc descobre que essa desgraça vai passar em cima da sua casa.
Vivi isso sete vezes, em dois anos.
Daí é aquela correria pro supermercado. Cheguei a ver gente se engalfinhando por prego, água engarrafada, leite em pó. Eu aproveitava a desculpa pra comprar leite condensado, que acabava antes do furacão chegar.
Cobrem-se as janelas com metal ou madeira. Colhem-se os côcos, que viram bolas de canhão, se deixados ali. Quem não recolhe a tradicional cesta de basquete provavelmente acaba tirando-a de cima do carro.
Existem categorias diferentes de furacão, a estrutura da cidade varia (na que eu morava, toda a fiação era subterrânea, então nunca fiquei sem luz - estranho ver no mapa o furacão passando na sua rua), a extensão, etc.
Dentro do furacão, podem ser formados tornados, que são aqueles funis visíveis que carregam vacas, carros, barcos... Mas são poucos.
Cansa ficar preso em casa. Às vezes, a sensação é a de estar dentro de um avião, dentro de uma tempestade, pelo barulho. Mas se você tem três filhos pequenos (dois na fralda) e um marido viajando que não pôde voltar porque o aeroporto está fechado há três dias, provavelmente você vai brincar de roda o tempo todo, e ninguém vai nem se tocar do que está acontecendo. Uno é legal, assistir desenhos... Nessa hora, é melhor companhia de criança, mesmo, bem sem noção.
O pós é cenário de guerra. Casas destelhadas, ruas obstruídas por árvores, às vezes imensas, seculares, que foram arrancadas pela raiz. Só sobrevivem palmeiras, flexíveis e pouco frondosas, que permitem que o vento passe por elas, sem resistência.
Mas o interessante é que é justamente no pós que acontece a maioria das mortes. Por quê? O Fulano desobedece a orientação das autoridades, e sai para avaliar os danos. Fio no chão, na água, é eletrocutado. Paga caro pela ansiedade.
Até a desgraça tem fatos curiosos. Até nessa hora há de haver equilíbrio emocional.

Vivência

Quando eu era criança, ali pelos cinco anos de idade, morava em Santos, bem perto do restaurante em que meu pai trabalhava, chamado Fifty-Fifty. (Meio a meio o quê, não tenho ideia...).
Meu pai era maître-D, e, apesar das pessoas imaginarem como é sofrido ser familiar de médico, por causa de plantões e etc, não sabem que é muito pior para garçon e similares. Eles dormem quando os outros estão acordados, e trabalham na hora em que, supostamente, a família está reunida para comer. Eu me lembro de uma única vez em que saímos para jantar juntos, na época éramos cinco, e fomos todos de calças jeans, rindo, celebrando.
Bom, tudo isso para dizer que estar com o meu pai era um evento muito raro, então ele tinha uma aura mágica. Era um homem fisicamente muito bonito, labioso, simpático, encantador, e ficava especialmente doce no ambiente de trabalho. Nasceu para servir, exímio ator, fazia o freguês se sentir especial. E eu era uma "freguesa", de fato, especial. Única filha, na época.
Então, nas raras vezes em que fui ao Fifty-Fifty, ele me levou a um ambiente com ar-condicionado (imagina a bênção que isso era, em Santos, nos anos 70), e me serviu uma torta de chocolate meio amargo, com recheio de damasco.
Não há nada no mundo com sabor parecido para mim. Misturar chocolate meio amargo com damasco me traz a memória afetiva de estar com ele, o geladinho na pele, o mundo fervendo lá fora, a voz, a atenção, me sentir cuidada, alguém me mostrando o que é bom e eu mereço.
Ao longo da vida, tenho consciência desse tipo de associações que faço, que me permitem viver mais intensamente e reviver, mais à frente, o que acontece de bom. Independente de vir a acontecer de novo, ou de algo ruim ter acontecido depois. A lembrança daquele momento, aquela sensação, aquele sentido despertado são meus e ninguém vai tirar, nunca. A não ser que eu venha a ter algum distúrbio neurológico, bate na madeira, nunca se sabe.
Exemplo mais recente: eu sei que se esculpir fosse um dom para mim, eu reproduziria um rosto de um homem. Tenho a memória tátil dos ossos todos, e da consistência da sua pele, dos tecidos que chegam até eles. Sei o comprimento dos seus cílios e o cheiro do seu queixo. (Sei, sei, isso não influenciaria na escultura).
Isso para mim é prova de um momento bem vivido.A impressão que me causa, o motivo inexplicável de eu já ter tocado tantos rostos, e nenhum ter marcado tanto. E não tem nada de amor, ou paixão, querer isso ou aquilo da pessoa. Simplesmente, por algum motivo, marcou. E não marcaram outros detalhes. Deles eu me lembro, mas com certeza vou esquecer logo, porque são pequenos. Ficou a memória tátil. Do rosto bonito. Uma surpresa boa. Um presente.
E a vida continua, e quando menos eu esperar, vai ter um gosto, um cheiro, uma música, um movimento ou sei lá o quê, novo ou conhecido e visto de outro ângulo, dentro de um contexto maior, bom, que vai fazer meu olho brilhar e me lembrar de como é gostoso estar viva.