Ao mesmo tempo que as formas materiais dos seres vivos foram criadas, também foi o mesmo número de centelhas de vida. Não chegavam a ser almas, mas já tinham características próprias e desejos, e foram entrando nos corpos, dando vida e habitando o planeta Terra. Puderam escolher livremente o tipo e o sexo que habitariam, conforme a inclinação.
Todas as possibilidades estavam expostas como num zoológico, com informações sobre cada uma delas, facilitando o trabalho. Assim, as mais agressivas tornaram-se selvagens, as mais tranquilas, depois viriam a ser domesticadas, e assim por diante, conforme o temperamento. Eram dirigidas ao que escolhiam por ordem de chegada na "fila dos decididos". Algumas demoravam demais, e não conseguiam ser o que queriam, porque outra já tinha escolhido antes.
Foi o que aconteceu com a centelha de número 453, o personagem principal dessa estória. Para seu azar, era uma centelha muito da assanhada, e resolveu escolher baseada em sua futura vida sexual. Decidiu ser macho, pois que percebeu que no Reino Animal, via de regra, a fêmea trabalhava mais, e era preguiçosa. Mesmo não tendo assumido um corpo ainda, já era machista, também.
Assim, nenhum ser com a palavra "reprodução assexuada" lhe interessou, como a estrela marinha, por exemplo.
De cara, já descartou ser um cavalo-marinho, que fica grávido e dá a luz a até 500 cavalinhos. Achou exagero.
Também não quis ser um cisne, pássaro fiel a vida toda ("tédio", pensou, revirando os olhos), que cuida dos filhotes e constrói o ninho. João de Barro, o "pedreiro que pode ser corno", nem pensar!
Outras centelhas íam escolhendo com menos exigência, e a lista de opções rapidamente diminuía. Mas a 453 estava muito distraída, queria ter certeza de se dar bem.
Pensou na opção de fazer sexo com outros machos, ampliar as possibilidades, como as girafas, gaivotas, bisões, golfinhos, mas achou muito moderninho e teve medo que doesse. Ser girafa também implicaria em beber a urina da fêmea, ficou com nojinho. Não seria nenhum desses.
Hermafroditismo, ou mudar de sexo depois de um tempo, como o peixe palhaço até soou interessante, mas também não quis.
Queria ser macho, bem machão, com um membro enorme, que não deixasse dúvidas (nada de dimorfisno)! O do canguru era bifurcado, deveria ser uma delícia a penetração dupla, mas a aparência era esquisita. Não seria a maioria dos aquáticos, que tinham fecundação externa. Queria sentir o quentinho de dentro da fêmea, de preferência várias vezes e por um bom tempo. Nada de ser rato, que dá uma em até 3 míseros segundos. Também lêmur não seria, porque o coitado tinha um pseudopênis. Talvez uma baleia azul, que tem o maior do mundo... Ficou em dúvida. Decidiu olhar mais opções.
E a lista ía diminuindo...
Passou rapidinho da abelha para o próximo, porque leu que só a abelha rainha estaria disponível, e seu motivo de orgulho ainda por cima poderia quebrar dentro dela. Tremeu só de imaginar a cena.
Ficou entre ser um galo, para poder dar umas boas bicadas nos cangotes das galinhas, e ter um harém delas, um bug love, que faz sexo 56 horas seguidas, ou um leopardo, que pode se garantir por até 120 atos em 8 horas.
Interou-se de mais informações sobre algumas outras possibilidades, e decidiu ser um leopardo.
Porém, para seu azar, quando entrou na fila, só havia um ser vivo que ainda não tinha recebido sua centelha de vida: a viúva-negra macho. Suando frio, nossa querida 453 leu na descrição: "a fêmea pratica o canibalismo do macho, pós-coito".
sábado, 31 de janeiro de 2015
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Mulherão (número 2)
Dizem que quando a gente está para morrer, passa um filminho de retrospectiva na cabeça da gente. Pessoalmente, acho mais provável que a gente tenha aquela sensação de queda brusca da pressão arterial, como quando a gente levanta rápido e sente que vai desmaiar. A orelha deve esquentar, a vista escurecer e qualquer dor parar. Mas tudo bem. Depois que acontecer comigo, posto aqui no blog prá esclarecer prá vocês.
Mas, voltando ao assunto: se o tal filminho passa mesmo, com certeza a pessoa que mais vai aparecer no meu chama-se Luciana. A melhor amiga desde a adolescência. Com centenas de testemunhas para comprovar a veracidade da afirmação.
Entrou na minha vida igual a pimentinha que é. Entenda-se: ela numa esquina gritando os palavrões que conhecia, aos treze anos de idade, e eu na outra, com os meus, aos catorze. Não tínhamos ido com a cara uma da outra. Mas, graças a capacidade de perdão das duas e a uma bola de voleibol que ela ganhou de Natal (e graças a Deus!), demos chance e a amizade chegou, devagar, mas firme e forte.
Junto com a amiga, ganhei uma família. A Lu é a filha caçula de uma tropa de dez irmãos: Cida, Célia, Zé, Sueli, Heloísa, Júlia, Selma, Sandra, Denise, ela. Não necessariamente nessa ordem. Levei bem uns três anos para decorar todos os nomes e rostos, que são bem parecidos. Porém, elas têm temperamentos diferentes, aquela história dos dedos das... bom, nesse caso, duas mãos. Os dos maridos e filhos, levou mais uns dois anos, e a outra geração, eu nem tento decorar. Aguns deles já foram meus pacientes. Esses, conheço bem.
Seus pais são a dona Ida, dona-de-casa, católica fervorosa, uma senhora com noventa anos de idade, saúde de ferro, muita opinião e assuntos para conversar, e o seu Ângelo, veterano da Segunda Guerra Mundial, na qual, dizia ele, tinha aprendido a aplicar injeção, aplicando. Estava sempre com um neto no colo, caminhando pela calçada, e vivia nos contando es(his?)tórias que adorávamos. Quando eu estava na casa dele e a madrugada vinha chegando, eu e a Lu matraqueando sem previsão de término, ele chegava na porta e dizia: "Arlete, quer que eu arme a cama de mola prá você?" - era o recado bem dado dele. Hora de partir.
Das pessoas da minha idade que me influenciaram, com certeza, ela foi a mais importante. Dei sorte. Com essa família enorme, e, óbvio, pelo temperamento também, sua inteligência e maturidade emocional sempre foram admiráveis. A gente discutia algum assunto, ela sempre tentava se colocar no lugar de todos os envolvidos, num exercício de empatia, e me ensinou a fazer o mesmo. Tinha muita tolerância à diversidade de pessoas e opiniões, e, também toda a criancice/ousadia de adolescente, comum entre a gente. Todo tipo de assunto, sem exceçào, dividíamos. Todas as dúvidas, angústias, ansiedades, tristezas, alegrias, tudo!
Trocamos muitas cartas através dos Correios, em férias e quando eu mudei para fazer a faculdade. Teve uma hora que enjoei do sobrenome dela, e a cada vez mandava um diferente, tipo piada. O carteiro entregava rindo. Ela pedia cartas cada vez mais longas. Mas não retribuía o favor direito. E dava a desculpa de ter menos assunto.
Em algumas poucas coisas éramos diferentes. Ela comprava roupa e mostrava tudo prá mim, peça por peça, toda feliz. Eu era menos vaidosa e ela se sentia traída porque eu não fazia o mesmo. Ela tinha muito mais vontade de se casar, ter filhos, e eu era mais focada em me tornar médica. E, por ironia do destino, houve uma época da nossa vida adulta em que eu era dona-de-casa, enquanto a carreira dela, como farmacêutica, e sua formação acadêmica estavam de vento em popa, com pós graduação e tudo.
Ela é o tipo de mulher que consegue o que quer, e faz bem feito o que se propõe a fazer. Tem um bom relacionamento com as pessoas, usa política limpa quando necessário, promove eventos em prol da saúde da comunidade em nossa cidade, cursos para aperfeiçoamento dos colegas, e muito mais. Foi eleita Conselheira Regional do Conselho Regional de Farmácia - SP, com milhares de votos, e homenageada na Câmara de Vereadores. Tem um casamento de vinte e um anos e dois filhos adoráveis. "O céu é o limite", eu digo prá ela, com toda certeza do que falo.
E de vez em quando ainda resolve ser cupido para mim. Risos. A essa altura do campeonato!
"Você não é uma amiga, você é uma parte de mim", me disse uma vez. E eu sinto exatamente a mesma coisa em relação a ela. Somos arquivos ambulantes das histórias que vivemos, juntas e separadas. Nos escolhemos como irmãs, por afinidade, e o tempo não mudou essa decisão. Mesmo as fases em que estivemos mais distantes, geograficamente e em termos de realidade, não abalaram a amizade.
Até hoje, contamos uma com a outra para dividir momentos bons e ruins. Ela é sensível, sabe o que falar, dá opiniões sinceras e equilibradas, e a cumplicidade entre a gente é absurda. Não há julgamento, e, quando há, é feito com amor e boa intenção.
Vou à casa da dona Ida sempre que posso, aos sábados à tarde, me encontrar com as minhas outras irmãs adotivas. É uma farra! Se tem um bebê, ele passa de colo em colo. Elas são amorosas, divertidas, transparentes, acolhedoras. É, verdadeiramente, uma reunião em família, para mim. Uma das famílias que Deus me deu, com laços mais fortes do que qualquer DNA.
Mas, voltando ao assunto: se o tal filminho passa mesmo, com certeza a pessoa que mais vai aparecer no meu chama-se Luciana. A melhor amiga desde a adolescência. Com centenas de testemunhas para comprovar a veracidade da afirmação.
Entrou na minha vida igual a pimentinha que é. Entenda-se: ela numa esquina gritando os palavrões que conhecia, aos treze anos de idade, e eu na outra, com os meus, aos catorze. Não tínhamos ido com a cara uma da outra. Mas, graças a capacidade de perdão das duas e a uma bola de voleibol que ela ganhou de Natal (e graças a Deus!), demos chance e a amizade chegou, devagar, mas firme e forte.
Junto com a amiga, ganhei uma família. A Lu é a filha caçula de uma tropa de dez irmãos: Cida, Célia, Zé, Sueli, Heloísa, Júlia, Selma, Sandra, Denise, ela. Não necessariamente nessa ordem. Levei bem uns três anos para decorar todos os nomes e rostos, que são bem parecidos. Porém, elas têm temperamentos diferentes, aquela história dos dedos das... bom, nesse caso, duas mãos. Os dos maridos e filhos, levou mais uns dois anos, e a outra geração, eu nem tento decorar. Aguns deles já foram meus pacientes. Esses, conheço bem.
Seus pais são a dona Ida, dona-de-casa, católica fervorosa, uma senhora com noventa anos de idade, saúde de ferro, muita opinião e assuntos para conversar, e o seu Ângelo, veterano da Segunda Guerra Mundial, na qual, dizia ele, tinha aprendido a aplicar injeção, aplicando. Estava sempre com um neto no colo, caminhando pela calçada, e vivia nos contando es(his?)tórias que adorávamos. Quando eu estava na casa dele e a madrugada vinha chegando, eu e a Lu matraqueando sem previsão de término, ele chegava na porta e dizia: "Arlete, quer que eu arme a cama de mola prá você?" - era o recado bem dado dele. Hora de partir.
Das pessoas da minha idade que me influenciaram, com certeza, ela foi a mais importante. Dei sorte. Com essa família enorme, e, óbvio, pelo temperamento também, sua inteligência e maturidade emocional sempre foram admiráveis. A gente discutia algum assunto, ela sempre tentava se colocar no lugar de todos os envolvidos, num exercício de empatia, e me ensinou a fazer o mesmo. Tinha muita tolerância à diversidade de pessoas e opiniões, e, também toda a criancice/ousadia de adolescente, comum entre a gente. Todo tipo de assunto, sem exceçào, dividíamos. Todas as dúvidas, angústias, ansiedades, tristezas, alegrias, tudo!
Trocamos muitas cartas através dos Correios, em férias e quando eu mudei para fazer a faculdade. Teve uma hora que enjoei do sobrenome dela, e a cada vez mandava um diferente, tipo piada. O carteiro entregava rindo. Ela pedia cartas cada vez mais longas. Mas não retribuía o favor direito. E dava a desculpa de ter menos assunto.
Em algumas poucas coisas éramos diferentes. Ela comprava roupa e mostrava tudo prá mim, peça por peça, toda feliz. Eu era menos vaidosa e ela se sentia traída porque eu não fazia o mesmo. Ela tinha muito mais vontade de se casar, ter filhos, e eu era mais focada em me tornar médica. E, por ironia do destino, houve uma época da nossa vida adulta em que eu era dona-de-casa, enquanto a carreira dela, como farmacêutica, e sua formação acadêmica estavam de vento em popa, com pós graduação e tudo.
Ela é o tipo de mulher que consegue o que quer, e faz bem feito o que se propõe a fazer. Tem um bom relacionamento com as pessoas, usa política limpa quando necessário, promove eventos em prol da saúde da comunidade em nossa cidade, cursos para aperfeiçoamento dos colegas, e muito mais. Foi eleita Conselheira Regional do Conselho Regional de Farmácia - SP, com milhares de votos, e homenageada na Câmara de Vereadores. Tem um casamento de vinte e um anos e dois filhos adoráveis. "O céu é o limite", eu digo prá ela, com toda certeza do que falo.
E de vez em quando ainda resolve ser cupido para mim. Risos. A essa altura do campeonato!
"Você não é uma amiga, você é uma parte de mim", me disse uma vez. E eu sinto exatamente a mesma coisa em relação a ela. Somos arquivos ambulantes das histórias que vivemos, juntas e separadas. Nos escolhemos como irmãs, por afinidade, e o tempo não mudou essa decisão. Mesmo as fases em que estivemos mais distantes, geograficamente e em termos de realidade, não abalaram a amizade.
Até hoje, contamos uma com a outra para dividir momentos bons e ruins. Ela é sensível, sabe o que falar, dá opiniões sinceras e equilibradas, e a cumplicidade entre a gente é absurda. Não há julgamento, e, quando há, é feito com amor e boa intenção.
Vou à casa da dona Ida sempre que posso, aos sábados à tarde, me encontrar com as minhas outras irmãs adotivas. É uma farra! Se tem um bebê, ele passa de colo em colo. Elas são amorosas, divertidas, transparentes, acolhedoras. É, verdadeiramente, uma reunião em família, para mim. Uma das famílias que Deus me deu, com laços mais fortes do que qualquer DNA.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
A Ex
Quando deixei de trabalhar no setor de emergência de um hospital pequeno, no Alto da Lapa, às sextas à noite, minha amiga Fernanda assumiu o meu lugar. Era um plantão tranquilo, com casos simples, boa retaguarda, e os donos pagavam em dia, coisa que, para a maioria dos médicos, é raridade.
Depois de uns seis meses, apareceu, uma noite, um moço que a impressionou pela beleza física. Estava com amigdalite, nada de mais, segundo ela, foi prescrito o antibiótico. No dia seguinte, ela me encontrou e comentou sobre ele. Depois de uma semana, ele passou de novo pelo plantão, para "ver se tinha sarado", e ficou em consulta uns quarenta minutos, jogando conversa fora. Quando ela me contou, comecei a brincar, que ela tinha arrumado um admirador. Ela ficou sem graça, riu, disse que desconfiava que sim, gostava da ideia, mas talvez não fosse nada disso. Na outra sexta-feira, lá me aparece ele, dizendo que estava com... afta! Aí, nós fechamos o diagnóstico. Quem vai a um plantão médico por causa de afta?! Trocaram os números de telefone, e começaram a se falar todos os dias. Ele era engenheiro agrônomo, divorciado havia dezoito meses, sem filhos. Ela era um doce de pessoa, tímida, discreta, "moça prá casar".
O que não esperávamos era que, na outra semana, ela pegasse a ficha de uma paciente e reconhecesse o sobrenome dele. Era muito diferente, começava com CJZN, ela não sabia pronunciar, por isso tinha notado. E também pelo interesse, óbvio.
A mulher era uma morena muito bonita, alta, cheia de joias, impressionava e intimidava pelos atributos físicos. Fernanda se perguntou se talvez ela seria uma parente. Não parecia irmã dele, porque ele é um alemãozão, aloirado de olhos verdes. Mas logo ela não teve dúvida de que era a ex-mulher dele. Ela queixou-se de "batedeira". Fernanda a consultou normalmente, examinou, pediu um eletrocardiograma, que estava normal, e tentou ser o mais profissional possível. Mas ficou o tempo todo se perguntando se não era coincidência demais aquela situação. Se ela sabia de alguma coisa, e qual seria o intuito disso. Eles eram discretos, nem tinham saído, ainda. Será que a mulher o teria seguido, nas vezes em que ele esteve lá? Se sentiu meio paranóica, mas as coisas ficaram mais complicadas. No final do atendimento, a minha amiga a encaminhou para o ambulatório de cardiologia, para investigar melhor, e ela caiu aos prantos. Disse que tinha certeza que estava sentindo aquilo pelo nervoso de estar esperando pelo resultado de um exame de HIV. Que tinha se separado do marido havia tempo, mas continuava dormindo com ele, e sabia que era um galinha, estava com muito receio de que viesse positivo.
Fernanda me procurou na manhã seguinte, desnorteada. Das duas uma: ou a mulher estava falando a verdade, e ela poderia estar entrando numa grande enrascada, ou ela estava mentindo, e ela estaria entrando numa grande enrascada, do mesmo jeito!
Eu não soube ao certo o que dizer. Por um lado, ela mal conhecia o moço, estava interessada, mas não apaixonada, seria fácil desistir naquele ponto. Por outro, se a mulher estivesse manipulando a situação, seria muito injusto ela desistir, e a moça se dar bem. Mas ambas não conseguíamos acreditar que alguém faria uma maldade tão grande, inventar essa história sórdida, para sacanear o ex-marido. Difícil.
A pulga ficou atrás da orelha, e Fernanda desconversou, evitou o contato com Tiago (esse é o nome dele), deletou seus contatos, e tentou esquecê-lo. Mas, depois de dois meses, não resistiu. Encontrou-se com ele, colocou as cartas na mesa, a história toda, e escutou o lado dele. A ex-mulher era realmente obcecada, fazia questão de manter o sobrenome dele, apesar de tanto tempo passado, e já tinha inventado outras histórias. Por exemplo, assim que se divorciaram, disse que estava grávida. Na hora em que ele pediu o exame comprovando, deu entrada num hospital, dizendo que estava abortando. No final, era mentira, ela teve que confessar.
Novamente, Fernanda veio até mim, para ponderarmos a situação. Sentia-se muito atraída por ele, era um cara bacana, ela já estava com certa idade, querendo casar e engravidar logo, tinha muita dificuldade em gostar de alguém. Mas a bagagem que ele trazia para o relacionamento era pesadíssima. O que fazer?
Fiquei numa situação difícil. Quis dizer para ela "corra para as montanhas e não olhe para trás", mas e se ele fosse o grande amor da vida dela? (Sim, sou romântica neste ponto). Tentei lembrá-la das aulas de psiquiatria, de um distúrbio de personalidade chamado borderline, que aparentemente a tal tinha. Como ela trabalhava, tinha amigos, se dava bem com a família (pelo que Tiago contava), não achava que precisava de ajuda. Atribuía seu comportamento bizarro à paixão, e não se libertava do passado.
Fernanda pensou bem, seguiu seu coração (ou seja, "não pensou demais da conta", como ela diria), e vai se casar daqui a um mês, após dois anos de namoro com Tiago. Eles definitvamente se amam, combinam muito, não imaginam o futuro um sem o outro e não aguentam mais namorar e dar tchau quando o fim-de-semana termina. Tudo bonitinho. Ou quase tudo. Vão morar em Ribeirão Preto, a 290 quilômetros de São Paulo, graças às aprontadas da ex. Ele conseguiu mudar de emprego. Neste período, Fernanda teve que trocar de celular cinco vezes, para parar de receber mensagens e ameaças, e procurou a delegacia uma vez para prestar queixa contra "a doida" - como a chamamos, por maldade, mesmo. Ela causou um acidente automobilístico uma vez, e ligou do hospital para o Tiago, para que ele fosse visitá-la. Fora as várias "tentativas de suicídio", que nunca vingaram, porque ela sempre dava um jeito de alguém descobrir antes que ela levasse a cabo os planos. Fernanda tenta se manter neutra, deixá-lo tomar as decisões a respeito do assunto, e ambos fazem terapia, para segurar a barra. Rezamos para que um dia "a doida" perceba que também precisa de ajuda profissional. Ou se apaixone por outro, para ser problema de outras pessoas. Mas o ideal é o primeiro cenário, claro.
"Graças a Deus, eles não tiveram filhos" - é a frase que a minha amiga mais repete.
"Boa sorte, Fernandinha" - é a resposta que eu mais dou. Porque ela, com certeza, vai precisar!
Depois de uns seis meses, apareceu, uma noite, um moço que a impressionou pela beleza física. Estava com amigdalite, nada de mais, segundo ela, foi prescrito o antibiótico. No dia seguinte, ela me encontrou e comentou sobre ele. Depois de uma semana, ele passou de novo pelo plantão, para "ver se tinha sarado", e ficou em consulta uns quarenta minutos, jogando conversa fora. Quando ela me contou, comecei a brincar, que ela tinha arrumado um admirador. Ela ficou sem graça, riu, disse que desconfiava que sim, gostava da ideia, mas talvez não fosse nada disso. Na outra sexta-feira, lá me aparece ele, dizendo que estava com... afta! Aí, nós fechamos o diagnóstico. Quem vai a um plantão médico por causa de afta?! Trocaram os números de telefone, e começaram a se falar todos os dias. Ele era engenheiro agrônomo, divorciado havia dezoito meses, sem filhos. Ela era um doce de pessoa, tímida, discreta, "moça prá casar".
O que não esperávamos era que, na outra semana, ela pegasse a ficha de uma paciente e reconhecesse o sobrenome dele. Era muito diferente, começava com CJZN, ela não sabia pronunciar, por isso tinha notado. E também pelo interesse, óbvio.
A mulher era uma morena muito bonita, alta, cheia de joias, impressionava e intimidava pelos atributos físicos. Fernanda se perguntou se talvez ela seria uma parente. Não parecia irmã dele, porque ele é um alemãozão, aloirado de olhos verdes. Mas logo ela não teve dúvida de que era a ex-mulher dele. Ela queixou-se de "batedeira". Fernanda a consultou normalmente, examinou, pediu um eletrocardiograma, que estava normal, e tentou ser o mais profissional possível. Mas ficou o tempo todo se perguntando se não era coincidência demais aquela situação. Se ela sabia de alguma coisa, e qual seria o intuito disso. Eles eram discretos, nem tinham saído, ainda. Será que a mulher o teria seguido, nas vezes em que ele esteve lá? Se sentiu meio paranóica, mas as coisas ficaram mais complicadas. No final do atendimento, a minha amiga a encaminhou para o ambulatório de cardiologia, para investigar melhor, e ela caiu aos prantos. Disse que tinha certeza que estava sentindo aquilo pelo nervoso de estar esperando pelo resultado de um exame de HIV. Que tinha se separado do marido havia tempo, mas continuava dormindo com ele, e sabia que era um galinha, estava com muito receio de que viesse positivo.
Fernanda me procurou na manhã seguinte, desnorteada. Das duas uma: ou a mulher estava falando a verdade, e ela poderia estar entrando numa grande enrascada, ou ela estava mentindo, e ela estaria entrando numa grande enrascada, do mesmo jeito!
Eu não soube ao certo o que dizer. Por um lado, ela mal conhecia o moço, estava interessada, mas não apaixonada, seria fácil desistir naquele ponto. Por outro, se a mulher estivesse manipulando a situação, seria muito injusto ela desistir, e a moça se dar bem. Mas ambas não conseguíamos acreditar que alguém faria uma maldade tão grande, inventar essa história sórdida, para sacanear o ex-marido. Difícil.
A pulga ficou atrás da orelha, e Fernanda desconversou, evitou o contato com Tiago (esse é o nome dele), deletou seus contatos, e tentou esquecê-lo. Mas, depois de dois meses, não resistiu. Encontrou-se com ele, colocou as cartas na mesa, a história toda, e escutou o lado dele. A ex-mulher era realmente obcecada, fazia questão de manter o sobrenome dele, apesar de tanto tempo passado, e já tinha inventado outras histórias. Por exemplo, assim que se divorciaram, disse que estava grávida. Na hora em que ele pediu o exame comprovando, deu entrada num hospital, dizendo que estava abortando. No final, era mentira, ela teve que confessar.
Novamente, Fernanda veio até mim, para ponderarmos a situação. Sentia-se muito atraída por ele, era um cara bacana, ela já estava com certa idade, querendo casar e engravidar logo, tinha muita dificuldade em gostar de alguém. Mas a bagagem que ele trazia para o relacionamento era pesadíssima. O que fazer?
Fiquei numa situação difícil. Quis dizer para ela "corra para as montanhas e não olhe para trás", mas e se ele fosse o grande amor da vida dela? (Sim, sou romântica neste ponto). Tentei lembrá-la das aulas de psiquiatria, de um distúrbio de personalidade chamado borderline, que aparentemente a tal tinha. Como ela trabalhava, tinha amigos, se dava bem com a família (pelo que Tiago contava), não achava que precisava de ajuda. Atribuía seu comportamento bizarro à paixão, e não se libertava do passado.
Fernanda pensou bem, seguiu seu coração (ou seja, "não pensou demais da conta", como ela diria), e vai se casar daqui a um mês, após dois anos de namoro com Tiago. Eles definitvamente se amam, combinam muito, não imaginam o futuro um sem o outro e não aguentam mais namorar e dar tchau quando o fim-de-semana termina. Tudo bonitinho. Ou quase tudo. Vão morar em Ribeirão Preto, a 290 quilômetros de São Paulo, graças às aprontadas da ex. Ele conseguiu mudar de emprego. Neste período, Fernanda teve que trocar de celular cinco vezes, para parar de receber mensagens e ameaças, e procurou a delegacia uma vez para prestar queixa contra "a doida" - como a chamamos, por maldade, mesmo. Ela causou um acidente automobilístico uma vez, e ligou do hospital para o Tiago, para que ele fosse visitá-la. Fora as várias "tentativas de suicídio", que nunca vingaram, porque ela sempre dava um jeito de alguém descobrir antes que ela levasse a cabo os planos. Fernanda tenta se manter neutra, deixá-lo tomar as decisões a respeito do assunto, e ambos fazem terapia, para segurar a barra. Rezamos para que um dia "a doida" perceba que também precisa de ajuda profissional. Ou se apaixone por outro, para ser problema de outras pessoas. Mas o ideal é o primeiro cenário, claro.
"Graças a Deus, eles não tiveram filhos" - é a frase que a minha amiga mais repete.
"Boa sorte, Fernandinha" - é a resposta que eu mais dou. Porque ela, com certeza, vai precisar!
Mulherão (número 1)
Eu adoro homens. Principalmente no que os diferencia de mim. A forma mais objetiva de encarar a vida, com menos drama, a agressividade (se for na medida certa), que geralmente eu não tenho, a barba (se tiver), os pelos do peito (se tiver uns brancos, melhor), a forma triangular do tronco... Epa! Não! Para tudo! Esse post é sobre mulher. Deixa eu me recompor.
...
Eu nasci e fui criada por uma amazona. Das que lideram, resolvem, fincam pé, brigam, esperneiam, levantam o nariz e seguem em frente, com as consequências do que escolheram. Incansável, íntegra, honesta, trabalhadora, cheia de boas intenções, que nem sempre se concretizam, porque, afinal de contas, todo ser humano tem suas limitações. Mas alguém que nunca passa em branco. Ame ou odeie, dificilmente alguém não percebe a sua presença.
Talvez por isso, por gostar tanto dessa presença marcante, interagir com ela e ser beneficiada tão ricamente, eu sou atraída e atraio mulheres deste tipo de temperamento forte. E elas borboleteiam em volta de mim, entram e saem da minha vida em várias situações, ao longo de décadas, agora que eu já vivi algumas.
Existe uma lista grande, que inclui as minhas madrinhas de batismo e crisma, tia materna, algumas tias-avós, tias paternas e amigas. Eu reconheço em mim traços e lições que recebi delas, e sei de algumas diferenças, que nunca atrapalharam o bom relacionamento. A maioria tem mais idade que eu.
Hoje, escolhi falar da Vani.
Primeiramente, ela impressiona pela aparência física. Muito bonita! Alta, esguia, olhos azuis esverdeados, bem juntos, rosto alongado, nariz aquilino, beleza europeia. Veste-se bem, e mesmo casual, demonstra bom gosto.
Nos conhecemos quando eu tinha onze anos, meus pais tinham acabado de se separar. Ela era amiga de uma amiga da minha mãe, e seu marido a ajudou com a pensão alimentícia. Tem duas filhas com idade perto da minha, e eu fui várias vezes na sua casa, brincar com um jogo de química, Ficávamos misturando os líquidos coloridos, enquanto os adultos conversavam.
Quando eu tinha quatorze anos, ela me chamou para trabalhar como berçarista, em sua escolinha e berçário. Na epoca, não existia esse nonsense bem-intencionado de trabalho infantil, e eu já estava escolada em cuidar dos meus dois irmãos.
Houve o benefício óbvio de eu ter um salário e amenizar as contas da casa, mas a convivência com ela foi maravilhosa. Lembro-me de várias histórias, muitos conselhos, mas principalmente o que sinto é gratidão.
Ela tolerava o meu topete de adolescente, e sempre escutava tudo o que fosse dito, do começo ao fim, sem interromper e sem mudar a expressão facial, por mais que não concordasse. Respondia com palavras educadas e sabia que para eu acatar, tinha que fazer sentido. E, obviamente, sempre fazia. Ela era ótima administradora. Uma vez, me deu um presta-atenção, porque percebeu que uma outra professora da escola estava me manipulando, para eu ser a porta-voz de seus interesses, mas não assumia, na frente da Vani.
Outra situação interessante foi um amor imenso que eu senti por um dos aluninhos, e ele por mim. Por algum motivo, a gente se apegou muito. Ele me chamava de mãe, e às vezes eu ía na van com ele entregá-lo em casa, só para ficar junto mais tempo. Eu gostava dos pais e eles gostavam de mim, e do que estava acontecendo, aparentemente. As outras crianças percebiam, mas não tinham ciúmes. Porém, um dia, a Vani me chamou para uma conversa, porque estava sendo muito difícil para o menino ir embora. Ela pediu que quando os pais viessem buscá-lo, eu deixasse outra professora levá-lo ao portão. Explicou que muitas mães se sentem culpadas em deixar o filho na escolinha, e talvez fosse um peso a mais sentir que o filho estava tão agarrado com uma outra pessoa. Ela não queria arriscar que isso acontecesse. Não tenho como não admirar uma pessoa dessas. A atenção com os detalhes, o cuidado com o lado emocional dos outros, o aconchego, a dedicação... Não tem preço!
Várias vezes eu a via curtindo as crianças. Sentava-se no chão para brincar com elas, umas três de uma vez, com aqueles braços longos, que alcançavam qualquer um que tentasse lhe escapar do abraço, rindo.
Eu sei que cuidava de mim, também. Ficava acompanhando a minha vida amorosa, aconselhava, sabia que o meu caminho era os estudos, e que a minha mãe contava com a influência (boa) dela sobre mim.
Na época da matrícula do terceiro colegial, a minha mãe adoeceu, caiu de cama e eu me vi sem um adulto para fazer a minha matrícula. Ela nem piscou. Recolheu os meus documentos, falou com o padre, explicou a situação. Ele me deu uma bolsa de estudos integral, ela assinou com responsável por mim, e comprou o material escolar.
Deixei de trabalhar na escolinha, quando passei a fazer cursinho à noite, e a escola, de manhã. Ficou muito cansativo.
No dia em que soubemos que eu passei no Vestibular, minha mãe e eu a procuramos. Ela vibrou! Disse que, coincidentemente, tinha sonhado com um amigo de infância, a noite toda, e ele era médico em Santos, onde eu estudaria. Só podia ser um sinal! Me mudei para lá com uma carta dela me apresentando para ele, uma pessoa incrível, também, que me apadrinhou em vários sentidos e me ajudou a me formar. Coincidentemente, ele tem duas filhas, com os mesmos nomes das filhas dela. Amo as quatro como irmãs, por extensão ao amor que tenho pelos dois.
Ela esteve na minha formatura, no meu casamento, e a gente se vê de vez em quando para um café. Conversar com ela me ensina algo, toda santa vez. Atualmente, ela me orienta a criar adolescentes.
Eu sinto que recebi e recebo muito mais dela do que ela de mim. Então, só posso acreditar que é uma bênção ter seu amor, e ela foi uma das pessoas que Deus enviou para mim como presente, quem sabe acertei em alguma coisa na vida passada, risos... Eu espero que um dia eu também seja leme, exemplo e bênção na vida de alguma pessoa mais novinha, além dos meus filhos. Porque aí as coisas boas vão sendo passadas prá frente, e a existência da Vani não beneficia apenas a mim, nesse sentido.
...
Eu nasci e fui criada por uma amazona. Das que lideram, resolvem, fincam pé, brigam, esperneiam, levantam o nariz e seguem em frente, com as consequências do que escolheram. Incansável, íntegra, honesta, trabalhadora, cheia de boas intenções, que nem sempre se concretizam, porque, afinal de contas, todo ser humano tem suas limitações. Mas alguém que nunca passa em branco. Ame ou odeie, dificilmente alguém não percebe a sua presença.
Talvez por isso, por gostar tanto dessa presença marcante, interagir com ela e ser beneficiada tão ricamente, eu sou atraída e atraio mulheres deste tipo de temperamento forte. E elas borboleteiam em volta de mim, entram e saem da minha vida em várias situações, ao longo de décadas, agora que eu já vivi algumas.
Existe uma lista grande, que inclui as minhas madrinhas de batismo e crisma, tia materna, algumas tias-avós, tias paternas e amigas. Eu reconheço em mim traços e lições que recebi delas, e sei de algumas diferenças, que nunca atrapalharam o bom relacionamento. A maioria tem mais idade que eu.
Hoje, escolhi falar da Vani.
Primeiramente, ela impressiona pela aparência física. Muito bonita! Alta, esguia, olhos azuis esverdeados, bem juntos, rosto alongado, nariz aquilino, beleza europeia. Veste-se bem, e mesmo casual, demonstra bom gosto.
Nos conhecemos quando eu tinha onze anos, meus pais tinham acabado de se separar. Ela era amiga de uma amiga da minha mãe, e seu marido a ajudou com a pensão alimentícia. Tem duas filhas com idade perto da minha, e eu fui várias vezes na sua casa, brincar com um jogo de química, Ficávamos misturando os líquidos coloridos, enquanto os adultos conversavam.
Quando eu tinha quatorze anos, ela me chamou para trabalhar como berçarista, em sua escolinha e berçário. Na epoca, não existia esse nonsense bem-intencionado de trabalho infantil, e eu já estava escolada em cuidar dos meus dois irmãos.
Houve o benefício óbvio de eu ter um salário e amenizar as contas da casa, mas a convivência com ela foi maravilhosa. Lembro-me de várias histórias, muitos conselhos, mas principalmente o que sinto é gratidão.
Ela tolerava o meu topete de adolescente, e sempre escutava tudo o que fosse dito, do começo ao fim, sem interromper e sem mudar a expressão facial, por mais que não concordasse. Respondia com palavras educadas e sabia que para eu acatar, tinha que fazer sentido. E, obviamente, sempre fazia. Ela era ótima administradora. Uma vez, me deu um presta-atenção, porque percebeu que uma outra professora da escola estava me manipulando, para eu ser a porta-voz de seus interesses, mas não assumia, na frente da Vani.
Outra situação interessante foi um amor imenso que eu senti por um dos aluninhos, e ele por mim. Por algum motivo, a gente se apegou muito. Ele me chamava de mãe, e às vezes eu ía na van com ele entregá-lo em casa, só para ficar junto mais tempo. Eu gostava dos pais e eles gostavam de mim, e do que estava acontecendo, aparentemente. As outras crianças percebiam, mas não tinham ciúmes. Porém, um dia, a Vani me chamou para uma conversa, porque estava sendo muito difícil para o menino ir embora. Ela pediu que quando os pais viessem buscá-lo, eu deixasse outra professora levá-lo ao portão. Explicou que muitas mães se sentem culpadas em deixar o filho na escolinha, e talvez fosse um peso a mais sentir que o filho estava tão agarrado com uma outra pessoa. Ela não queria arriscar que isso acontecesse. Não tenho como não admirar uma pessoa dessas. A atenção com os detalhes, o cuidado com o lado emocional dos outros, o aconchego, a dedicação... Não tem preço!
Várias vezes eu a via curtindo as crianças. Sentava-se no chão para brincar com elas, umas três de uma vez, com aqueles braços longos, que alcançavam qualquer um que tentasse lhe escapar do abraço, rindo.
Eu sei que cuidava de mim, também. Ficava acompanhando a minha vida amorosa, aconselhava, sabia que o meu caminho era os estudos, e que a minha mãe contava com a influência (boa) dela sobre mim.
Na época da matrícula do terceiro colegial, a minha mãe adoeceu, caiu de cama e eu me vi sem um adulto para fazer a minha matrícula. Ela nem piscou. Recolheu os meus documentos, falou com o padre, explicou a situação. Ele me deu uma bolsa de estudos integral, ela assinou com responsável por mim, e comprou o material escolar.
Deixei de trabalhar na escolinha, quando passei a fazer cursinho à noite, e a escola, de manhã. Ficou muito cansativo.
No dia em que soubemos que eu passei no Vestibular, minha mãe e eu a procuramos. Ela vibrou! Disse que, coincidentemente, tinha sonhado com um amigo de infância, a noite toda, e ele era médico em Santos, onde eu estudaria. Só podia ser um sinal! Me mudei para lá com uma carta dela me apresentando para ele, uma pessoa incrível, também, que me apadrinhou em vários sentidos e me ajudou a me formar. Coincidentemente, ele tem duas filhas, com os mesmos nomes das filhas dela. Amo as quatro como irmãs, por extensão ao amor que tenho pelos dois.
Ela esteve na minha formatura, no meu casamento, e a gente se vê de vez em quando para um café. Conversar com ela me ensina algo, toda santa vez. Atualmente, ela me orienta a criar adolescentes.
Eu sinto que recebi e recebo muito mais dela do que ela de mim. Então, só posso acreditar que é uma bênção ter seu amor, e ela foi uma das pessoas que Deus enviou para mim como presente, quem sabe acertei em alguma coisa na vida passada, risos... Eu espero que um dia eu também seja leme, exemplo e bênção na vida de alguma pessoa mais novinha, além dos meus filhos. Porque aí as coisas boas vão sendo passadas prá frente, e a existência da Vani não beneficia apenas a mim, nesse sentido.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Sofrimento
Estou envolvida com a Medicina há vinte e oito anos, desde que entrei na faculdade, aos dezesseis. Como aluna, interna, médica, paciente, acompanhante de paciente, estagiária, pesquisadora, técnica de métodos diagnósticos, observadora ou qualquer outra função, nunca consegui ficar mais de duas semanas sem pisar num hospital. Assim, vi muitas histórias de superação do sofrimento, como não podia deixar de ser, e muitos tipos de reação a ele.
Mas foi por causa de um morcego que aprendi, uma vez, um modo lindo de fazer as pazes com o mesmo.
Tem gente que extrapola as cinco fases fundamentais de luto de Kübler-Rose para qualquer sofrimento (ou mudança) inevitável, o que faz sentido, para mim. São elas: negação, raiva, negociação, depressão, aceitação. Não necessariamente nesta ordem, com duração variável, às vezes voltando para uma que já passou, e, geralmente com a aceitação no final (o que é desejável, saudável). É nesta que as pessoas administram o sentimento de maneira a sofrer menos, por meios diferentes. Alguns recorrem ao estilo Pollyanna ("tudo tem um lado bom, o jogo do contente"), à religião (karma, reencarnação, vontade de Deus, como exemplos, para haver um senso de justiça/explicação), aceitam por cansaço mesmo (já que não tem outra opção, e o tempo ameniza), e outras.
Voltemos ao morcego. Uma noite, há quatro anos, um entrou no meu apartamento. Me acordou, pousando na minha coxa (e o desgraçado nem tinha pago um jantar, e nem mandou flores no dia seguinte!). A minha filha estava do meu lado, na cama, conclusão: vacina e soro anti-rábico para as duas!
Eu estava no Posto de Saúde para tomar o tal soro. Foi administrado por uma enfermeira, com a qual eu já tinha tido contato num momento muito difícil emocionalmente, antes. Não diria que éramos amigas, mas havia uma proximidade entre a gente, por essa razão. Para esse soro, ela pegou um acesso venoso (para medicação, caso eu apresentasse alergia ou choque anafilático), colocou um pouco dele no meu antebraço, para ver se havia reação local, e depois dividiu o resto da dose entre as duas coxas. Talvez por fazer musculação na época, o líquido entrou rasgando, doeu demais, mesmo, e as lágrimas começaram a rolar. Percebi que ela foi pega de surpresa. Talvez me visse como mais forte, pelo meu comportamento prévio. Segurou a minha mão e me perguntou o que estava acontecendo. Expliquei que eu estava chorando em imaginar que a minha filha, com sete anos na época, tomaria quatro picadas e sentiria aquela dor, e isso estava cortando o meu coração. Acho que aflorou nela a empatia das mães. Ela começou a chorar, também.
E me contou a história do filho, que teve um grave e raro problema ortopédico, aos dezessete anos. Gostei, me distraiu da dor, e me deu uma lição de vida. Falou das várias cirurgias a que ele foi submetido, a insegurança quanto aos resultados, sessões dolorosas de fisoterapia, o custo, e quão ruim foi tudo ter acontecido naquela idade, com Vestibular acontecendo, perspectiva de entrar numa faculdade, e tudo o mais. Como foi difícil para ela ver o filho sofrer, e todas as fases pelas quais passou (bem parecidas com as de luto, mesmo), como mãe. Mas que por muito tempo se fixou na pergunta "por que eu?". Disse que percebeu que muito do sofrimento foi gerado por essa dúvida. Até um dado momento, em que olhou em volta, naquele ambiente nosocomial, com tanta gente passando por tanta coisa diferente, e teve uma mudança radical da pergunta: "e por que não eu?". Começou a se perguntar se, considerando-se que o sofrimento é parte da vida de todo o mundo, por que ela se sentia melhor do que os outros ali, por que ela achava que poderia acontecer com qualquer um, e com ela não. Me surpreendi. Eu, pessoalmente, nunca havia encarado dessa maneira. Eu também me colocava como vítima, na maioria das vezes. E achei muito válido, uma forma de aceitação muito bela. Se sentir parte da humanidade, com suas mazelas, dividir o preço de estar viva com outros seres humanos, que também experienciam coisas que não querem.
Mas, como o meu estilo é Pollyanna, mesmo: prá mim, esse foi o aspecto bom de ter entrado um morcego na minha casa. Tive a oportunidade de ouvir esse ponto de vista diferente, desse show de mulher.
Ah! Nem doeu tanto assim o soro, na minha filha. Ela disse que foi um três, numa escala de um a dez, de dor.
Mas foi por causa de um morcego que aprendi, uma vez, um modo lindo de fazer as pazes com o mesmo.
Tem gente que extrapola as cinco fases fundamentais de luto de Kübler-Rose para qualquer sofrimento (ou mudança) inevitável, o que faz sentido, para mim. São elas: negação, raiva, negociação, depressão, aceitação. Não necessariamente nesta ordem, com duração variável, às vezes voltando para uma que já passou, e, geralmente com a aceitação no final (o que é desejável, saudável). É nesta que as pessoas administram o sentimento de maneira a sofrer menos, por meios diferentes. Alguns recorrem ao estilo Pollyanna ("tudo tem um lado bom, o jogo do contente"), à religião (karma, reencarnação, vontade de Deus, como exemplos, para haver um senso de justiça/explicação), aceitam por cansaço mesmo (já que não tem outra opção, e o tempo ameniza), e outras.
Voltemos ao morcego. Uma noite, há quatro anos, um entrou no meu apartamento. Me acordou, pousando na minha coxa (e o desgraçado nem tinha pago um jantar, e nem mandou flores no dia seguinte!). A minha filha estava do meu lado, na cama, conclusão: vacina e soro anti-rábico para as duas!
Eu estava no Posto de Saúde para tomar o tal soro. Foi administrado por uma enfermeira, com a qual eu já tinha tido contato num momento muito difícil emocionalmente, antes. Não diria que éramos amigas, mas havia uma proximidade entre a gente, por essa razão. Para esse soro, ela pegou um acesso venoso (para medicação, caso eu apresentasse alergia ou choque anafilático), colocou um pouco dele no meu antebraço, para ver se havia reação local, e depois dividiu o resto da dose entre as duas coxas. Talvez por fazer musculação na época, o líquido entrou rasgando, doeu demais, mesmo, e as lágrimas começaram a rolar. Percebi que ela foi pega de surpresa. Talvez me visse como mais forte, pelo meu comportamento prévio. Segurou a minha mão e me perguntou o que estava acontecendo. Expliquei que eu estava chorando em imaginar que a minha filha, com sete anos na época, tomaria quatro picadas e sentiria aquela dor, e isso estava cortando o meu coração. Acho que aflorou nela a empatia das mães. Ela começou a chorar, também.
E me contou a história do filho, que teve um grave e raro problema ortopédico, aos dezessete anos. Gostei, me distraiu da dor, e me deu uma lição de vida. Falou das várias cirurgias a que ele foi submetido, a insegurança quanto aos resultados, sessões dolorosas de fisoterapia, o custo, e quão ruim foi tudo ter acontecido naquela idade, com Vestibular acontecendo, perspectiva de entrar numa faculdade, e tudo o mais. Como foi difícil para ela ver o filho sofrer, e todas as fases pelas quais passou (bem parecidas com as de luto, mesmo), como mãe. Mas que por muito tempo se fixou na pergunta "por que eu?". Disse que percebeu que muito do sofrimento foi gerado por essa dúvida. Até um dado momento, em que olhou em volta, naquele ambiente nosocomial, com tanta gente passando por tanta coisa diferente, e teve uma mudança radical da pergunta: "e por que não eu?". Começou a se perguntar se, considerando-se que o sofrimento é parte da vida de todo o mundo, por que ela se sentia melhor do que os outros ali, por que ela achava que poderia acontecer com qualquer um, e com ela não. Me surpreendi. Eu, pessoalmente, nunca havia encarado dessa maneira. Eu também me colocava como vítima, na maioria das vezes. E achei muito válido, uma forma de aceitação muito bela. Se sentir parte da humanidade, com suas mazelas, dividir o preço de estar viva com outros seres humanos, que também experienciam coisas que não querem.
Mas, como o meu estilo é Pollyanna, mesmo: prá mim, esse foi o aspecto bom de ter entrado um morcego na minha casa. Tive a oportunidade de ouvir esse ponto de vista diferente, desse show de mulher.
Ah! Nem doeu tanto assim o soro, na minha filha. Ela disse que foi um três, numa escala de um a dez, de dor.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Nego
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
Me leva pro samba
Que eu vou me acabar
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
É coxa com coxa
Que eu quero é sambar
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
Me fala um gracejo
Que eu quero é ousar
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
Me tira o sossego
Que eu quero te amar
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
Me leva prá casa
Que eu vou te beijar
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
Me morde na nuca
Que eu quero é gozar
Me faz um chamego
Me leva pro samba
Que eu vou me acabar
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
É coxa com coxa
Que eu quero é sambar
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
Me fala um gracejo
Que eu quero é ousar
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
Me tira o sossego
Que eu quero te amar
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
Me leva prá casa
Que eu vou te beijar
Vem cá, meu nego
Me faz um chamego
Me morde na nuca
Que eu quero é gozar
Vontade
Que vontade de estar com você!
Deixar o mundo lá fora,
Esquecer o horário,
Aabandonar o juízo,
Me perder em você...
Desmentir as decisões,
Os julgamentos, as ilusões,
E só variar as posições.
Te dar toda a atenção que você pede,
Matar a sede que cresceu ao longo dos anos.
Não saber onde você termina e eu começo,
De onde surgiu e para onde vai
Essa chama que adormece, mas não morre
Que me consome e me dá vida.
Que vontade de estar com você,
Sem hora prá acabar,
Sem destino prá alcançar,
Só estar com você,
Prá sempre...
Deixar o mundo lá fora,
Esquecer o horário,
Aabandonar o juízo,
Me perder em você...
Desmentir as decisões,
Os julgamentos, as ilusões,
E só variar as posições.
Te dar toda a atenção que você pede,
Matar a sede que cresceu ao longo dos anos.
Não saber onde você termina e eu começo,
De onde surgiu e para onde vai
Essa chama que adormece, mas não morre
Que me consome e me dá vida.
Que vontade de estar com você,
Sem hora prá acabar,
Sem destino prá alcançar,
Só estar com você,
Prá sempre...
Assinar:
Postagens (Atom)