Em uma aula de Psicologia Médica, o professor fez um exercício conosco que achei bastante interessante. Nos contou uma estória na seguinte linha: "uma mulher estava extremamente infeliz no casamento, e então começou a atravessar o rio, para visitar a mãe do outro lado, todos os dias. Apaixonou-se e tornou-se amante de um homem que morava lá. Mentia, então, para o marido, dizendo que visitaria a mãe, mas ficava com o homem, até o horário da última catraca voltar. Certa noite, perdeu a hora. Voltou para a casa dele, e pediu que a levasse de carro através da ponte, pois era muito perigosa, um lugar no qual havia muitas ocorrências de estupro. O homem, por medo de ser desmascarado pelo marido, se negou a ir. Disse que ela se arriscava a isso acontecer, que arcasse com as consequências. A mulher decidiu ir, mesmo assim, e foi estuprada e assassinada." De quem foi a culpa deste crime? Por quê? - eram as perguntas.
Não havia resposta certa, e a intenção era gerar debate e aprimorar a argumentação entre nós. E eu gosto pouco de uma polêmica...
Houve, então, quem colocasse a culpa na mulher. Era uma mulher casada, traindo o marido, se arriscou, perdendo a hora, indo sozinha pela ponte, deveria ter dormido na casa da mãe. Houve quem julgou o amante, porque foi um covarde, não a acompanhou para sua segurança, não demonstrou a menor consideração. Também houve quem responsabilizou o marido, porque se ele a estivesse fazendo feliz, ela não estaria indo buscar amor do outro lado do rio e se expondo ao perigo desse jeito. E houve gente que, taxativamente, falou que a culpa do crime era do criminoso, oras! Só não teve um "a culpa é do governo", mas chegamos perto, porque, afinal, ele não combate a criminalidade (alguém poderia argumentar). Percebi que o professor nos escutava e já ía chegando a uma opinião sobre nós, durante a aula. Um era mais expansivo, o outro mais tímido, um prático e direto ao ponto, o outro ponderado e detalhista, e assim por diante.
Não me canso de observar essas diferenças entre as pessoas. Em cada mínimo aspecto do comportamento. As escolhas, o que dá prazer, o que se evita, as proridades, o jeito de se posicionar em relação aos outros, ao mundo e a si mesmo... Impressionante!
Tem gente que tem prazer tipo "máquina de Coca-Cola". Vai lá, coloca o dinheiro, certeza que o refrigerante cai na abertura. Tem gente que prefere mil vezes uma máquina caça-níqueis. Coloca a moeda, gira a manivela, o gelinho na barriga, a expectativa do que vai acontecer. Tem gente que gosta de um meio-termo. Ou da primeira em certos assuntos, e da segunda, em outros. E a reação, caso a lata não caia? Pode-se suspirar em aborrecimento e colocar mais dinheiro (ou desistir de uma vez, a sede nem era tanta), ou ficar tão frustrado, chacoalhar e chegar a chutar a máquina de raiva. E, no caça-níqueis, existem aqueles que se propõem a perder uma certa quantia, que, atingida, acaba com a brincadeira. E outro que gasta muito mais do que planeja, na esperança de recuperar o que perdeu. Ou porque uma vez ganhou muito e quer ter aquela sensação de novo. Tem gente que já experimentou a sensação boa, parte para tentar a roleta, prá ver se é mais gostoso.
Mas, pensando bem, diferenças de temperamento existem até entre bichos. Tenho dois gatos da raça Pelo Curto Brasileiro (ou, vou no popular, vira-latas) que se comportam de maneira muito diferente entre si. A mais velha é uma lady, independente, carinhosa só quando quer, e sempre cede para o mais novo - o lugar, a vez de comer, o que o outro exigir, sem briga. O mais novinho nos segue igual a um cachorrinho, pela casa, mia com muito sofrimento quando se vê sozinho, mas não ronrona e não aceita carinho.
Ter consciência de tudo isso é importante para qualquer um, em qualquer relacionamento. Para tolerar ou decidir se afastar, se houver opção. Ou administrar da melhor maneira, se tiver que conviver, por força das circunstâncias. Mas é, em especial, para pessoas em cargos de chefia. E, inclusive nisso, as diferenças se mostram. Existem os que têm ambição de ocupar um cargo alto, mas, claramente, sem o menor talento para isso. Querem o status, o ganho financeiro, mas não levam em consideração a responsabilidade e dedicação que são exigidas. Não têm bom senso suficiente para liderar. O bom chefe, par começo de conversa, entende os talentos, valores e potenciais dos subordinados, e os distribui de acordo, de forma a aproveitar o melhor de cada um. Num mundo ideal. Claro.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Tsunami
E chegou a hora do adeus
Obrigada por quase tudo
Desculpe alguma coisa
Juro que eu tentei
Sei que tentaste também
Não sei o que fazer agora
Só sei que eu sobrevivi
A vida seguirá sem ti
E que nunca mais serei a mesma
Não vou voltar ao que era antes
Não quero mais o que eu queria
Quando eu te conheci
Porque eu já tive e foi lindo
Construído por nós dois
Mas cobrastes o teu preço
Digamos, então, que estamos quites
Não olhe para trás
E não procures
Reatar a amizade
Ou a menor civilidade
Porque te conheço demais
Prá baixar a guarda tão cedo
Segue teu rumo
Faça as pazes contigo mesmo
E me deixe em paz
Talvez o dia chegue
Em que o mar recue
O sentimento se transforme
A areia seque
O chão se torne firme
E eu repense a minha atitude
Mas não conte com isso
O tsunami foi catastrófico
O estrago foi grande
E não mereces mais uma chance
De estar perto do que arruinaste
Obrigada por quase tudo
Desculpe alguma coisa
Juro que eu tentei
Sei que tentaste também
Não sei o que fazer agora
Só sei que eu sobrevivi
A vida seguirá sem ti
E que nunca mais serei a mesma
Não vou voltar ao que era antes
Não quero mais o que eu queria
Quando eu te conheci
Porque eu já tive e foi lindo
Construído por nós dois
Mas cobrastes o teu preço
Digamos, então, que estamos quites
Não olhe para trás
E não procures
Reatar a amizade
Ou a menor civilidade
Porque te conheço demais
Prá baixar a guarda tão cedo
Segue teu rumo
Faça as pazes contigo mesmo
E me deixe em paz
Talvez o dia chegue
Em que o mar recue
O sentimento se transforme
A areia seque
O chão se torne firme
E eu repense a minha atitude
Mas não conte com isso
O tsunami foi catastrófico
O estrago foi grande
E não mereces mais uma chance
De estar perto do que arruinaste
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Inocência
Adoro formaturas e casamentos. Não conheço ninguém que não goste, nem que seja só pela festa. No primeiro, existe a sensação de realização, batalha vencida, etapa encerrada. No segundo, pode existir tudo isso, dependendo dos envolvidos, mas celebra-se também o amor entre duas pessoas. Claro, falando de uma maneira geral. Existem, infelizmente, as exceções. Situação parecida é a descoberta da primeira gravidez, mas geralmente não tem festa oficial.
Nestes três casos, há uma coisa em comum que é essencial: a esperança. O recém-formado, o recém-casado, e a futura mamãe vêem as coisas de maneira romântica, sem muita certeza do que está por vir. Os mais velhos sabem mais, e devem ficar quietos, nesta hora.
É detestável a atitude de certas pessoas, amarguradas com a vida, que, com boa ou má intenção, tentam mostrar a realidade da vida, e acabam por estragar um pouco (ou muito) a alegria do momento.
Antes de me casar, houve dois homens que me disseram "não faça isso!", e me deixaram com muita raiva. Não é o que a gente quer escutar. Houve também dois casais que eram muito felizes, celebraram a decisão e me deixaram feliz, também. Se eu tivesse escutado os dois primeiros, teria perdido a chance de quinze anos maravilhosos na vida, e três filhos melhores ainda!
Quando entrei na faculdade, encontrei uma médica que me disse que se pudesse voltar atrás, não faria esse curso. Que detestava estar entre desconhecidos ee dizer que era médica. Também perdeu a chance de ficar quieta. Hoje em dia, eu não tenho problema nenhum em dizer para qualquer pessoa que sou médica, e, pelo contrário, tenho orgulho e não faria outrs coisa na vida. Claro, quando vejo o carimbo de um colega, com o número de inscrição do CRM (Conselho Regional de Medicina) muito mais alto que o meu, penso "Nossa, que bebê... ainda vai se decepcionar muito com a profissão..." Mas, se eu o encontrar pessoalmente, não vou ficar reclamando dela, contando todos os podres, todas as limitações sociais e econômicas. Deixa que descubra sozinho... Cada um tem a sua experiência, quem sabe a dele será melhor que a minha?
Conheci uma mulher que, grávida da primeira filha, caiu na besteira de conversar com a mulher errada, e chorou muito por isso. Infeliz por ser mãe, a outra lamentava ter abandonado (ainda que temporariamente) a carreira, e desembestou a falar de assadura de fralda, vacinas, noites sem dormir, mamilos rachados... Prá quê?! Um colega do meu ex, descontente com os filhos adolescentes, deu "meus pêsames" para ele, quando contou da minha gravidez. Fim da picada! O que se quer alcançar fazendo isso?
Não tire a inocência da pessoa! Não distribua amargura! A sua não vai diminuir, dando uma má opinião para quem está para começar um caminho, que pode vir a ser bem melhor administrado que o seu!
A pessoa que está se formando tem mais é que achar que vai ser bem-sucedido, fazer diferença no mundo. A que se casa, que vai ser para sempre, que o amor é de verdade e melhor que o da maioria. A futura mamãe tem que ter a chance de só olhar o lado bom da maternidade, para que o amor nasça forte, e as dificuldades sejam superadas quando e se surgirem.
Deixem os esperançosos curtirem esse estado natural e feliz de boa vontade. Depois, se eles tiverem más experiências e quiserem conversar, aí, sim, troque experiências, para eles saberem que é difícil para todo mundo. Mas não contamine quem é puro de coração. Tem hora que a melhor coisa é calar a boca e comemorar como se não soubesse do outro lado da moeda.
Nestes três casos, há uma coisa em comum que é essencial: a esperança. O recém-formado, o recém-casado, e a futura mamãe vêem as coisas de maneira romântica, sem muita certeza do que está por vir. Os mais velhos sabem mais, e devem ficar quietos, nesta hora.
É detestável a atitude de certas pessoas, amarguradas com a vida, que, com boa ou má intenção, tentam mostrar a realidade da vida, e acabam por estragar um pouco (ou muito) a alegria do momento.
Antes de me casar, houve dois homens que me disseram "não faça isso!", e me deixaram com muita raiva. Não é o que a gente quer escutar. Houve também dois casais que eram muito felizes, celebraram a decisão e me deixaram feliz, também. Se eu tivesse escutado os dois primeiros, teria perdido a chance de quinze anos maravilhosos na vida, e três filhos melhores ainda!
Quando entrei na faculdade, encontrei uma médica que me disse que se pudesse voltar atrás, não faria esse curso. Que detestava estar entre desconhecidos ee dizer que era médica. Também perdeu a chance de ficar quieta. Hoje em dia, eu não tenho problema nenhum em dizer para qualquer pessoa que sou médica, e, pelo contrário, tenho orgulho e não faria outrs coisa na vida. Claro, quando vejo o carimbo de um colega, com o número de inscrição do CRM (Conselho Regional de Medicina) muito mais alto que o meu, penso "Nossa, que bebê... ainda vai se decepcionar muito com a profissão..." Mas, se eu o encontrar pessoalmente, não vou ficar reclamando dela, contando todos os podres, todas as limitações sociais e econômicas. Deixa que descubra sozinho... Cada um tem a sua experiência, quem sabe a dele será melhor que a minha?
Conheci uma mulher que, grávida da primeira filha, caiu na besteira de conversar com a mulher errada, e chorou muito por isso. Infeliz por ser mãe, a outra lamentava ter abandonado (ainda que temporariamente) a carreira, e desembestou a falar de assadura de fralda, vacinas, noites sem dormir, mamilos rachados... Prá quê?! Um colega do meu ex, descontente com os filhos adolescentes, deu "meus pêsames" para ele, quando contou da minha gravidez. Fim da picada! O que se quer alcançar fazendo isso?
Não tire a inocência da pessoa! Não distribua amargura! A sua não vai diminuir, dando uma má opinião para quem está para começar um caminho, que pode vir a ser bem melhor administrado que o seu!
A pessoa que está se formando tem mais é que achar que vai ser bem-sucedido, fazer diferença no mundo. A que se casa, que vai ser para sempre, que o amor é de verdade e melhor que o da maioria. A futura mamãe tem que ter a chance de só olhar o lado bom da maternidade, para que o amor nasça forte, e as dificuldades sejam superadas quando e se surgirem.
Deixem os esperançosos curtirem esse estado natural e feliz de boa vontade. Depois, se eles tiverem más experiências e quiserem conversar, aí, sim, troque experiências, para eles saberem que é difícil para todo mundo. Mas não contamine quem é puro de coração. Tem hora que a melhor coisa é calar a boca e comemorar como se não soubesse do outro lado da moeda.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Escolha
Recostada num sofá confortável, numa sala de dimensões amplas, na casa de seus pais, Ana cochilava com languidez. Naquela fase entre estar acordada e adormecida, sentiu que abandonava seu corpo, num sonho estranho, vívido, do qual se lembraria para sempre.
Entrou em uma adega, onde encontrou sua irmã, Maria, próxima a uma mesa retangular comprida, com quatro taças de vinho de cristal cheias pela metade.
- Hora de escolher, Ana. - E fez um gesto sinuoso apontando as taças com a palma da mão esquerda.
Ana aproximou-se, deu-lhe um beijo nos lábios, como era costume, desde crianças, e sentou-se numa cadeira. Maria sentou-se em sua frente, do outro lado da mesa.
Ela tomou a primeira taça, e sorriu para a irmã, que sorriu de volta.
- Descreve. - pediu Maria.
Ana fez o ritual de degustação do vinho, e repetiu com cada taça, posteriormente. Inspecionou a coloração, depois contra a luz, inalou, fez movimentos circulares com a taça e cheirou novamente, experimentou e bebeu, por final. Procurou pelas palavras certas.
Respondeu, para o primeiro:
- Esse é bem límpido... Vermelho rubi... Tem um cheiro animal. - Parou para pensar, olhou de novo, bebeu mais um pouco. - Doce, fresco e delgado.
E, imediatamente, lhe veio à mente a imagem do cuidador de cavalos. E sua voz: "Eu te amo, Ana. Quero te fazer feliz." Olhou assustada para a irmã, que levantou as sombrancelhas, como se também pudesse ouvir.
- Este vinho é de uma safra comum, irmã. Na verdade, todas esses garrafas da parede atrás de mim são dele.
Ela viu a quantidade delas acomodadas lá, às centenas, e imediatamente a bebida perdeu o seu valor. Assumiu um gosto de vulgaridade, de lugar-comum. Teve curiosidade em provar o próximo, num tom de vermelho violáceo muito mais bonito.
Repetiu as manobras. Obedeceu Maria, novamente, após saborear por um momento:
- Aspecto brilhante, lembra substâncias queimadas para o olfato, com um toque de canela, encorpado, mas um pouco áspero.
De novo, um rosto invadiu seu pensamento, e a voz que vinha dele: "Por você, abandono a minha batina, minha querida..." Devolveu rapidamente a taça ao seu lugar. Um sentimento de medo e culpa chegou, de pronto.
- Não fica assim, Ana. São apenas opções. O futuro está em suas mãos.
Partiu para o terceiro. O coração já disparava um pouco. Estava claramente sendo testada, e não o contrário. Era um pouco assustador que a irmã parecesse saber o que passava no seu íntimo, com tanta clareza.
Teve bastante dificuldade em descrever, por falta de características fortes. Esse era bem menos marcante. Mas um vinho raro, disse Maria. Ana quis experimentar, independentemente disso. Por algum motivo, tinha chamado mais a sua atenção do que os outros, logo que entrou no jogo.
- Vermelho tijolo, opaco, frutado... Açucarado, leve... Um tanto insípido pro meu gosto. É o...
Maria fez que sim com a cabeça.
- Sim. É o filho do Conde, Percy. Você sabe que ele está cedendo à chantagem do pai, e pensando em desisitir de você, não é?
Ana olhou para baixo e conteve uma lágrima. Aquele era o vinho do qual queria se embriagar. Previsível, de baixo teor alcoólico, sem sobressaltos ou ressaca, com uma pequena possibilidade de tédio acompanhando. Mas fraco, para alguém que conhecesse vinhos, como ela. Infelizmente.
Antes que Ana partisse para a última taça, Maria trouxe a garrafa. Jurou que era a única daquele tipo. Preciosíssima. Tirou a rolha, e Ana poderia jurar que viu uma fumacinha sair dela, e formar uma pequena caveira no ar. Pensou que talvez já estivesse bêbada. Maria suspirou, com os olhos fechados, e encheu um pouco mais.
- Agora, essa. - Pediu, sem disfarçar a ansiedade.
- Hum... vermelho vivo, mas velado, turvo... cheiro de madeira e vegetal. Seco, áspero, denso... - Fechou os olhos - Embriagante, inevitável, irresistível... "Ana, você vai ser minha, custe o que custar!"
Ela saiu subitamente do enlevo em que estava.
- Henrique! - Gritou.
Maria sorriu lentamente, e seus olhos marejaram.
- Mas ele estava na sua cama até ontem, irmã. É o pai do seu filho! Não seria certo!
- Ele é o rei, irmã. E a quer. Segue o seu coração. Eu aprovo o que você quiser, desde que fiel à sua vontade e não às pressões políticas dos homens.
Uma rajada de vento entrou pela janela, batendo em seu rosto com violência, e ela acordou. O gosto de vinho ainda estava no fundo de sua garganta. A decisão estava tomada. Precisava fazer com que ele soubesse, agora.
Entrou em uma adega, onde encontrou sua irmã, Maria, próxima a uma mesa retangular comprida, com quatro taças de vinho de cristal cheias pela metade.
- Hora de escolher, Ana. - E fez um gesto sinuoso apontando as taças com a palma da mão esquerda.
Ana aproximou-se, deu-lhe um beijo nos lábios, como era costume, desde crianças, e sentou-se numa cadeira. Maria sentou-se em sua frente, do outro lado da mesa.
Ela tomou a primeira taça, e sorriu para a irmã, que sorriu de volta.
- Descreve. - pediu Maria.
Ana fez o ritual de degustação do vinho, e repetiu com cada taça, posteriormente. Inspecionou a coloração, depois contra a luz, inalou, fez movimentos circulares com a taça e cheirou novamente, experimentou e bebeu, por final. Procurou pelas palavras certas.
Respondeu, para o primeiro:
- Esse é bem límpido... Vermelho rubi... Tem um cheiro animal. - Parou para pensar, olhou de novo, bebeu mais um pouco. - Doce, fresco e delgado.
E, imediatamente, lhe veio à mente a imagem do cuidador de cavalos. E sua voz: "Eu te amo, Ana. Quero te fazer feliz." Olhou assustada para a irmã, que levantou as sombrancelhas, como se também pudesse ouvir.
- Este vinho é de uma safra comum, irmã. Na verdade, todas esses garrafas da parede atrás de mim são dele.
Ela viu a quantidade delas acomodadas lá, às centenas, e imediatamente a bebida perdeu o seu valor. Assumiu um gosto de vulgaridade, de lugar-comum. Teve curiosidade em provar o próximo, num tom de vermelho violáceo muito mais bonito.
Repetiu as manobras. Obedeceu Maria, novamente, após saborear por um momento:
- Aspecto brilhante, lembra substâncias queimadas para o olfato, com um toque de canela, encorpado, mas um pouco áspero.
De novo, um rosto invadiu seu pensamento, e a voz que vinha dele: "Por você, abandono a minha batina, minha querida..." Devolveu rapidamente a taça ao seu lugar. Um sentimento de medo e culpa chegou, de pronto.
- Não fica assim, Ana. São apenas opções. O futuro está em suas mãos.
Partiu para o terceiro. O coração já disparava um pouco. Estava claramente sendo testada, e não o contrário. Era um pouco assustador que a irmã parecesse saber o que passava no seu íntimo, com tanta clareza.
Teve bastante dificuldade em descrever, por falta de características fortes. Esse era bem menos marcante. Mas um vinho raro, disse Maria. Ana quis experimentar, independentemente disso. Por algum motivo, tinha chamado mais a sua atenção do que os outros, logo que entrou no jogo.
- Vermelho tijolo, opaco, frutado... Açucarado, leve... Um tanto insípido pro meu gosto. É o...
Maria fez que sim com a cabeça.
- Sim. É o filho do Conde, Percy. Você sabe que ele está cedendo à chantagem do pai, e pensando em desisitir de você, não é?
Ana olhou para baixo e conteve uma lágrima. Aquele era o vinho do qual queria se embriagar. Previsível, de baixo teor alcoólico, sem sobressaltos ou ressaca, com uma pequena possibilidade de tédio acompanhando. Mas fraco, para alguém que conhecesse vinhos, como ela. Infelizmente.
Antes que Ana partisse para a última taça, Maria trouxe a garrafa. Jurou que era a única daquele tipo. Preciosíssima. Tirou a rolha, e Ana poderia jurar que viu uma fumacinha sair dela, e formar uma pequena caveira no ar. Pensou que talvez já estivesse bêbada. Maria suspirou, com os olhos fechados, e encheu um pouco mais.
- Agora, essa. - Pediu, sem disfarçar a ansiedade.
- Hum... vermelho vivo, mas velado, turvo... cheiro de madeira e vegetal. Seco, áspero, denso... - Fechou os olhos - Embriagante, inevitável, irresistível... "Ana, você vai ser minha, custe o que custar!"
Ela saiu subitamente do enlevo em que estava.
- Henrique! - Gritou.
Maria sorriu lentamente, e seus olhos marejaram.
- Mas ele estava na sua cama até ontem, irmã. É o pai do seu filho! Não seria certo!
- Ele é o rei, irmã. E a quer. Segue o seu coração. Eu aprovo o que você quiser, desde que fiel à sua vontade e não às pressões políticas dos homens.
Uma rajada de vento entrou pela janela, batendo em seu rosto com violência, e ela acordou. O gosto de vinho ainda estava no fundo de sua garganta. A decisão estava tomada. Precisava fazer com que ele soubesse, agora.
Escrevendo
Escrever é tirar um retrato do seu próprio pensamento. Nada menos do que isso. Pode ser mais ou menos fiel a ele, dependendo da sua capacidade de transformá-lo em palavras. Mais ou menos colorido, com contornos de definições diferentes e nitidez variável. Mas, como todo pensamento é livre, muito além do que são os sentimentos e as emoções, as possibilidades são ilimitadas.
Quem tem compromisso com a verdade é o biógrafo. Principalmente se escrevendo sobre si mesmo. Senão, é uma mentira, por definição. O autor de ficção, porém, está livre de amarras.
O pensamento pode visitar uma situação passada, ou algo do presente, passear por possibilidades e desejos, criar mundos que não existem. Descrever loucuras ainda não provadas, casos verídicos e fantasiosos, suposições e desconfianças. Revisitar um clássico, dar mais detalhes sobre outro, criar castelos no ar, ver o que lá não estava, provar do que nunca existirá. E não necessariamente diz algo do que o autor está passando, naquele momento da sua vida. Pode, sim, ser um desabafo, uma manifestação de emoção intensa. Mas pode, também, de propósito, ser uma fuga da realidade.
É mais comum se escrever sobre coisas das quais se tem vivência, assuntos mais conhecidos, e, assim, confortáveis. Mas existem momentos em que quem está criando age como um ator: se coloca no lugar de um personagem, num exercício de empatia, e tenta viver uma vida diferente da sua, para enriquecimento próprio e/ou entertenimento de outros.
Então, tudo o que é escrito foi pensado, mas não necessariamente vivido, no sentido real da palavra. Digo isso para esclarecer as pessoas que podem se identificar com algo que eu escrevo, se ofender ou ver mais do que realmente existe ou existiu. As pessoas das quais eu falo com veracidade (em fatos e sentimentos) são avisadas disso, assim que eu posto. As outras podem se reconhecer em fragmentos aqui e ali, num diálogo, aspecto físico ou situação. Mas certamente fizeram parte de um mosaico criativo, do conjunto de imagens e emoções onde a minha mente passeou, sem muito compromisso, e foi trazido para cá. Se isso acontecer, desculpa alguma coisa que deva ser desculpada. Sinta-se homenageado, por favor.
Quem tem compromisso com a verdade é o biógrafo. Principalmente se escrevendo sobre si mesmo. Senão, é uma mentira, por definição. O autor de ficção, porém, está livre de amarras.
O pensamento pode visitar uma situação passada, ou algo do presente, passear por possibilidades e desejos, criar mundos que não existem. Descrever loucuras ainda não provadas, casos verídicos e fantasiosos, suposições e desconfianças. Revisitar um clássico, dar mais detalhes sobre outro, criar castelos no ar, ver o que lá não estava, provar do que nunca existirá. E não necessariamente diz algo do que o autor está passando, naquele momento da sua vida. Pode, sim, ser um desabafo, uma manifestação de emoção intensa. Mas pode, também, de propósito, ser uma fuga da realidade.
É mais comum se escrever sobre coisas das quais se tem vivência, assuntos mais conhecidos, e, assim, confortáveis. Mas existem momentos em que quem está criando age como um ator: se coloca no lugar de um personagem, num exercício de empatia, e tenta viver uma vida diferente da sua, para enriquecimento próprio e/ou entertenimento de outros.
Então, tudo o que é escrito foi pensado, mas não necessariamente vivido, no sentido real da palavra. Digo isso para esclarecer as pessoas que podem se identificar com algo que eu escrevo, se ofender ou ver mais do que realmente existe ou existiu. As pessoas das quais eu falo com veracidade (em fatos e sentimentos) são avisadas disso, assim que eu posto. As outras podem se reconhecer em fragmentos aqui e ali, num diálogo, aspecto físico ou situação. Mas certamente fizeram parte de um mosaico criativo, do conjunto de imagens e emoções onde a minha mente passeou, sem muito compromisso, e foi trazido para cá. Se isso acontecer, desculpa alguma coisa que deva ser desculpada. Sinta-se homenageado, por favor.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Doença
Quando dona Hermínia enviuvou, aos 72 anos, as quatro filhas decidiram não tirá-la da casa que havia construído e na qual morava havia 45 anos. Minha amiga Renata, a mais velha, mudou-se para lá, com o marido. Os filhos estavam na faculdade, visitavam pouco os pais devido a distância, e a adaptação foi fácil. A sogra e o genro se entendiam bem, e Renata, por ser dona-de-casa, administrava tudo para a mãe, desde pagar as contas até supermercado, refeições, ordens para a empregada, levá-la ao médico e o que mais surgisse. A senhora vivia contente, fazendo seus sapatinhos de tricô para a caridade, e se encontrava com amigas de vez em quando, para um jogo de buraco. Elogiava sempre a filha, e chamava-a de "meu tesouro".
Após três anos, porém, as coisas começaram a mudar. Aos poucos, Renata notou uma perda de memória na mãe. Conversou com as irmãs, e acharam que era da idade, não havia motivo para preocupação. Na verdade, era a esperança que elas tinham. Mas foi ficando cada vez mais frequente. Ela ía até a cozinha, Renata perguntava se ela precisava de ajuda, ela dizia que não se lembrava por que tinha ido até lá. Voltava para a sala, voltava para a cozinha, dizia que não lembrava oonde estavam os óculos. Renata os achava bem ao lado da poltrona. Depois, o novelo de lã cor-de-rosa. Depois, outro detalhe havia sido esquecido. Aos poucos, começou a deixar de tomar o remédio para pressão alta pela manhã, como sempre fez. Renata colocava numa caixinha com a indicação de segunda a sexta-feira, e ela sempre deu conta, sozinha. Mas começou a esquecer, e, se perguntassem, olhava com estranhamento para a pessoa, e depois dizia "não tenho certeza". Logo parou de escovar os dentes.
Além disso, começou a ficar apática, quieta num canto, conversar menos, reagir de maneira neutra mesmo às notícias mais alegres.
Renata levou-a ao geriatra, que fez todos os testes necessários para descartar outras doenças, e chegou ao diagnóstico: mal de Alzheimer.
Cada filha reagiu de um jeito. Renata primeiro entristeceu-se, depois teve medo do que estava por vir. A segunda, Mônica, tratou de ler o que pudesse na Internet a respeito, e reuniu as quatro para se organizarem. A terceira, Marta, disse que queria assegurar o conforto da mãe, que providenciaria uma cuidadora, quando houvesse a necessidade, e que organizaria os gastos, que elas dividiriam. A quarta, Alessandra, na eterna atitute de bebezinha, só chorava, e disse que concordava com tudo o que fosse decidido.
Eu e Renata já nos víamos com frequência, mas essa situação nos aproximou mais. Ela contava comigo para desabafar, às vezes num café, às vezes num telefonema, mesmo. Cortava o coração escutar a descrição do que estava acontecendo, e fiz algumas visitas a dona Hermínia, mesmo na época em que ela deixou de me reconhecer. Pelo jeito, todos que lhe deviam gratidão viviam borboleteando em volta dela, e enquanto ela pode perceber as presenças das pessoas queridas, curtiu os momentos com alegria. Mas não durou muito, infelizmente.
O que mais impressionou e entristeceu Renata, no início da doença, foi a mudança da expressão do olhar dela. "Eu acho que a alma da pessoa está nos olhos, mesmo. E a alma da minha mãe está abandonando o seu corpo. É como ver uma árvore sendo comida por cupins por dentro, e só ficando a casca, e a essência, a seiva desaparecendo, lá dentro, aos poucos".
E que árvore tinha sido aquela! Dona Hermínia tinha mudado para São Paulo assim que se casou, aos 22 anos, vindo do interior do estado, e deu abrigo para todos os seis irmãos e vários sobrinhos que vieram tentar a vida na capital. Teve um casamento feliz com um homem de gênio difícil, mas coração bom, e enterrou um filho, assassinado a tiros num latrocínio, com 40 anos de idade. E não se entregou. Viveu os lutos de maneira saudável, sem entrar em depressão, como uma bola bem cheia, que bate no chão e quica de volta. Então, ela foi frutífera, frondosa, vistosa, acolhedora, de aparência secular e infinita. Totalmente diferente do que se tornou, com a doença. O que fez mais difícil a situação para a família. Foi, para ela, perder a mãe, sem que ela realmente morresse.
No início, Renata se chocava com as coisas que a mãe falava, quando ficava agressiva. Tentava descobrir se tinha culpa, se merecia aquela explosão. Levava para o lado pessoal, porque ela sempre tinha sido tão coerente, e era a voz, o corpo e os gestos dela. Fui várias vezes nas consultas com as duas, na esperança de que o neurologista conseguisse cconvencê-la de que nada daquilo era pessoal. Não era uma punição, era a evolução da doença, e havia remédios e maneiras menos difíceis de lidar com ela, no dia-a-dia. Por exemplo: Renata e a família tentavam ao máximo manter uma rotina consistente, para não sobressaltá-la, principalmente no final do dia.
Foram particularmente difíceis três situações: Renata foi a primeira filha que dona Hermínia esqueceu. Dizia que ela já estava morta. Renata magoou-se com isso, como se fosse uma indicação de menos apreço. Logo ela, que mais fazia pela mãe, convivia no dia-a-dia. Também ficou chocada quando a mãe começou a exigir "voltar para casa", que aquela não era a dela. No dia em que a mãe disse que as pessoas responsáveis pela TV a cabo estavam mudando a programação para confundi-la, Renata teve uma crise de choro, na minha frente. Como se aquilo tivesse sido uma indicação mais palpável da doença, do que todos os outros sintomas.
Hoje em dia, quatro anos após o diagnóstico, "as abóboras já se acomodaram na carroça", diz ela com um sorriso triste. As quatro formaram um time unido e que funciona bem, junto com os maridos, filhos e cuidadoras. A dona Hermínia teve sorte. São elogiados pelos médicos.
Às vezes, Renata se deixa abater pela situação, e me conta, a sós, o que vai no seu íntimo. Recentemente, a mãe foi hospitalizada com uma infecção urinária, e ela disse que teve uma atitude muito agressiva com o pessoal do hospital. Reconhecia. Exigiu que atendessem logo, fez vários contatos com o médico, se empenhou demais na cura da mãe. E me disse que tem muito medo do dia da morte dela. Tem medo de que, além de sentir tristeza, também vai sentir alívio. Porque a carga vem sendo pesada demais, emocional, fisica e financeiramente. E aí, medo de sentir culpa por ter sentido alívio. Não se permite isso. Sugeri que espere para ver como será, que não tem como prever. Prometi estar com ela nessa hora e dei, sem pressionar, o cartão de uma ótima psicóloga, outra grande amiga minha.
Após três anos, porém, as coisas começaram a mudar. Aos poucos, Renata notou uma perda de memória na mãe. Conversou com as irmãs, e acharam que era da idade, não havia motivo para preocupação. Na verdade, era a esperança que elas tinham. Mas foi ficando cada vez mais frequente. Ela ía até a cozinha, Renata perguntava se ela precisava de ajuda, ela dizia que não se lembrava por que tinha ido até lá. Voltava para a sala, voltava para a cozinha, dizia que não lembrava oonde estavam os óculos. Renata os achava bem ao lado da poltrona. Depois, o novelo de lã cor-de-rosa. Depois, outro detalhe havia sido esquecido. Aos poucos, começou a deixar de tomar o remédio para pressão alta pela manhã, como sempre fez. Renata colocava numa caixinha com a indicação de segunda a sexta-feira, e ela sempre deu conta, sozinha. Mas começou a esquecer, e, se perguntassem, olhava com estranhamento para a pessoa, e depois dizia "não tenho certeza". Logo parou de escovar os dentes.
Além disso, começou a ficar apática, quieta num canto, conversar menos, reagir de maneira neutra mesmo às notícias mais alegres.
Renata levou-a ao geriatra, que fez todos os testes necessários para descartar outras doenças, e chegou ao diagnóstico: mal de Alzheimer.
Cada filha reagiu de um jeito. Renata primeiro entristeceu-se, depois teve medo do que estava por vir. A segunda, Mônica, tratou de ler o que pudesse na Internet a respeito, e reuniu as quatro para se organizarem. A terceira, Marta, disse que queria assegurar o conforto da mãe, que providenciaria uma cuidadora, quando houvesse a necessidade, e que organizaria os gastos, que elas dividiriam. A quarta, Alessandra, na eterna atitute de bebezinha, só chorava, e disse que concordava com tudo o que fosse decidido.
Eu e Renata já nos víamos com frequência, mas essa situação nos aproximou mais. Ela contava comigo para desabafar, às vezes num café, às vezes num telefonema, mesmo. Cortava o coração escutar a descrição do que estava acontecendo, e fiz algumas visitas a dona Hermínia, mesmo na época em que ela deixou de me reconhecer. Pelo jeito, todos que lhe deviam gratidão viviam borboleteando em volta dela, e enquanto ela pode perceber as presenças das pessoas queridas, curtiu os momentos com alegria. Mas não durou muito, infelizmente.
O que mais impressionou e entristeceu Renata, no início da doença, foi a mudança da expressão do olhar dela. "Eu acho que a alma da pessoa está nos olhos, mesmo. E a alma da minha mãe está abandonando o seu corpo. É como ver uma árvore sendo comida por cupins por dentro, e só ficando a casca, e a essência, a seiva desaparecendo, lá dentro, aos poucos".
E que árvore tinha sido aquela! Dona Hermínia tinha mudado para São Paulo assim que se casou, aos 22 anos, vindo do interior do estado, e deu abrigo para todos os seis irmãos e vários sobrinhos que vieram tentar a vida na capital. Teve um casamento feliz com um homem de gênio difícil, mas coração bom, e enterrou um filho, assassinado a tiros num latrocínio, com 40 anos de idade. E não se entregou. Viveu os lutos de maneira saudável, sem entrar em depressão, como uma bola bem cheia, que bate no chão e quica de volta. Então, ela foi frutífera, frondosa, vistosa, acolhedora, de aparência secular e infinita. Totalmente diferente do que se tornou, com a doença. O que fez mais difícil a situação para a família. Foi, para ela, perder a mãe, sem que ela realmente morresse.
No início, Renata se chocava com as coisas que a mãe falava, quando ficava agressiva. Tentava descobrir se tinha culpa, se merecia aquela explosão. Levava para o lado pessoal, porque ela sempre tinha sido tão coerente, e era a voz, o corpo e os gestos dela. Fui várias vezes nas consultas com as duas, na esperança de que o neurologista conseguisse cconvencê-la de que nada daquilo era pessoal. Não era uma punição, era a evolução da doença, e havia remédios e maneiras menos difíceis de lidar com ela, no dia-a-dia. Por exemplo: Renata e a família tentavam ao máximo manter uma rotina consistente, para não sobressaltá-la, principalmente no final do dia.
Foram particularmente difíceis três situações: Renata foi a primeira filha que dona Hermínia esqueceu. Dizia que ela já estava morta. Renata magoou-se com isso, como se fosse uma indicação de menos apreço. Logo ela, que mais fazia pela mãe, convivia no dia-a-dia. Também ficou chocada quando a mãe começou a exigir "voltar para casa", que aquela não era a dela. No dia em que a mãe disse que as pessoas responsáveis pela TV a cabo estavam mudando a programação para confundi-la, Renata teve uma crise de choro, na minha frente. Como se aquilo tivesse sido uma indicação mais palpável da doença, do que todos os outros sintomas.
Hoje em dia, quatro anos após o diagnóstico, "as abóboras já se acomodaram na carroça", diz ela com um sorriso triste. As quatro formaram um time unido e que funciona bem, junto com os maridos, filhos e cuidadoras. A dona Hermínia teve sorte. São elogiados pelos médicos.
Às vezes, Renata se deixa abater pela situação, e me conta, a sós, o que vai no seu íntimo. Recentemente, a mãe foi hospitalizada com uma infecção urinária, e ela disse que teve uma atitude muito agressiva com o pessoal do hospital. Reconhecia. Exigiu que atendessem logo, fez vários contatos com o médico, se empenhou demais na cura da mãe. E me disse que tem muito medo do dia da morte dela. Tem medo de que, além de sentir tristeza, também vai sentir alívio. Porque a carga vem sendo pesada demais, emocional, fisica e financeiramente. E aí, medo de sentir culpa por ter sentido alívio. Não se permite isso. Sugeri que espere para ver como será, que não tem como prever. Prometi estar com ela nessa hora e dei, sem pressionar, o cartão de uma ótima psicóloga, outra grande amiga minha.
Sentidos
Os meus olhos o adoram.
Adoraram desde a primeira noite.
Difícil controlá-los com você por perto.
Me forço a não buscá-lo, do outro lado da sala.
O medo de ser desmascarada pelos colegas.
Seu perfume me embriaga.
Bem melhor que você esteja longe.
Fica aí, não olha prá cá.
Presta atenção em qualquer coisa.
Divirte-se, conversa, sorri.
Mas não fala muito alto, por favor.
Porque eu adoro a sua voz.
O seu sotaque.
Não quero que você me desperte os outros sentidos.
Não me deixe saborear ou tocar.
Não se aproxime.
O medo do vício é muito grande.
O estrago seria irreversível.
Tenho certeza.
Hoje, por exemplo, a insônia é certa.
Adoraram desde a primeira noite.
Difícil controlá-los com você por perto.
Me forço a não buscá-lo, do outro lado da sala.
O medo de ser desmascarada pelos colegas.
Seu perfume me embriaga.
Bem melhor que você esteja longe.
Fica aí, não olha prá cá.
Presta atenção em qualquer coisa.
Divirte-se, conversa, sorri.
Mas não fala muito alto, por favor.
Porque eu adoro a sua voz.
O seu sotaque.
Não quero que você me desperte os outros sentidos.
Não me deixe saborear ou tocar.
Não se aproxime.
O medo do vício é muito grande.
O estrago seria irreversível.
Tenho certeza.
Hoje, por exemplo, a insônia é certa.
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